Planalto diz que justificativas são falsas e vê tentativa de interferência política - Foto: Presidência da República / Casa Branca
A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (4), após o Departamento de Estado americano revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi tomada dias depois de o governo brasileiro negar a entrada de dois funcionários do governo de Donald Trump que pretendiam viajar ao país para uma missão diplomática.
A medida norte-americana foi confirmada pelo Departamento de Estado em resposta enviada ao Portal. Segundo o órgão, a decisão ocorreu após semanas de negociações com o governo brasileiro e representa uma reação à negativa dos vistos para Riley M. Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto.
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“Comunicamos continuamente com o governo brasileiro durante semanas e demos ao governo brasileiro todas as oportunidades para fazer a coisa certa, mas eles continuaram adiando e criando obstáculos”, afirmou o Departamento de Estado.
Segundo a pasta americana, a decisão contra Viotti não representa uma declaração de persona non grata (PNG), medida diplomática mais grave que implica a expulsão formal de um representante estrangeiro.
“Esta não é uma PNG (Persona Non Grata), embora opções diplomáticas adicionais permaneçam sobre a mesa caso o governo brasileiro continue adiando ou se recuse a conceder o agrément”, informou o governo dos Estados Unidos.
O Departamento de Estado também afirmou que a ação foi uma resposta equivalente à decisão brasileira. “Esta é uma ação recíproca. Caso a embaixadora deixe o país, ela precisará solicitar novamente um visto”, disse.
Planalto contesta justificativas dos EUA
Em nota enviada à imprensa, a Presidência da República afirmou que repudia a decisão americana e classificou como “falsas” as justificativas apresentadas pelo governo dos Estados Unidos.
Segundo o Planalto, o processo de concessão do agrément (autorização para que um diplomata estrangeiro seja aceito oficialmente por outro país) é confidencial e o nome indicado só deve ser divulgado após a aprovação formal.
“O governo dos Estados Unidos anunciou publicamente o nome de seu candidato antes de apresentar o pedido formal de agrément ao governo brasileiro”, afirmou a Presidência.
O governo brasileiro também declarou que não há prazo definido pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas para a análise do pedido e que a solicitação americana ainda está em avaliação.

Para o Planalto, a decisão dos Estados Unidos não é um episódio isolado, mas parte de uma sequência de medidas consideradas hostis contra o Brasil.
“A decisão de hoje faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”, informou a nota.
EUA dizem que Trump tem direito de escolher representantes diplomáticos
Ao justificar a decisão, o Departamento de Estado afirmou que o presidente Donald Trump tem autonomia para definir os representantes americanos no exterior.
“Como afirmamos anteriormente, o presidente Trump tem o direito de determinar quem representa o povo e os interesses americanos ao redor do mundo”, declarou o órgão.
A pasta acrescentou que Trump está formando uma equipe diplomática alinhada à política “America First” e afirmou rejeitar interferências estrangeiras nos processos internos dos Estados Unidos.
“Rejeitamos qualquer esforço de países estrangeiros para interferir em nossos processos domésticos”, completou o Departamento de Estado.
Disputa começou após negativa de vistos a funcionários americanos
O embate diplomático teve início após o governo brasileiro negar vistos a Riley Barnes e Samuel Samson, que planejavam uma visita oficial ao Brasil.
Segundo informações divulgadas anteriormente, os representantes americanos pretendiam realizar reuniões com autoridades brasileiras para discutir temas relacionados ao sistema eleitoral, incluindo a confiabilidade das urnas eletrônicas.
A embaixada dos Estados Unidos no Brasil havia informado que a comitiva também teria um encontro com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A possibilidade da visita gerou reação do governo brasileiro, que avaliou que a missão poderia reforçar questionamentos sem fundamento sobre o processo eleitoral brasileiro. O Itamaraty decidiu negar os vistos aos funcionários americanos no fim de julho.
Relação entre Brasília e Washington já vinha se deteriorando
O conflito diplomático ocorre em meio ao aumento das tensões entre os dois países. Nas últimas semanas, Brasil e Estados Unidos também entraram em rota de colisão por causa de medidas comerciais e políticas adotadas pelo governo Trump.
Em julho, os Estados Unidos anunciaram tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, incluindo uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações destinadas ao mercado americano.
Além das questões econômicas, o governo brasileiro também passou a enfrentar a possibilidade de novas sanções individuais contra autoridades brasileiras, incluindo uma eventual retomada de medidas contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), com base na Lei Magnitsky.
A legislação americana prevê punições como bloqueio de ativos, restrições financeiras e cancelamento de vistos para pessoas acusadas de corrupção ou violações de direitos humanos.
Moraes e sua esposa, Viviane Barsi de Moraes, chegaram a ser incluídos na lista de sanções em 2025, mas foram retirados posteriormente.
Governo brasileiro defende diálogo
Apesar do aumento da tensão, o Planalto afirmou que continuará buscando uma solução diplomática para o impasse.
Segundo a Presidência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tratou das sanções aplicadas contra autoridades brasileiras durante encontro com Trump em Washington, em maio.
O governo brasileiro afirmou que seguirá defendendo o diálogo e a negociação nas relações internacionais, mas destacou que não aceitará medidas que considere como interferência em assuntos internos do país.
