Relatório da PF aponta cadastro do senador em conta bancária de empresa sediada em Portugal - Foto: Divulgação / Senado
Documentos reunidos pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre os desvios no INSS indicam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, estava cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada em Portugal que possuía um terço de um jato executivo utilizado pelo empresário Daniel Vorcaro. A informação foi revelada pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, com base em registros bancários e mensagens obtidos pelos investigadores.
A conta era mantida no Santander e administrada pelo advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Segundo a documentação descrita no relatório policial, o vínculo do senador com o cadastro bancário foi encerrado em 22 de maio de 2025, após uma solicitação enviada ao banco pela secretária do advogado. Flávio e Tomaz negam ter compartilhado uma conta e contestam a interpretação dos investigadores.
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A troca de e-mails foi encontrada pela PF no iCloud de Tomaz. Em mensagem enviada às 8h05 de 22 de maio de 2025, Fayla Menezes pediu a gestores do Santander que incluíssem um novo usuário no perfil master da conta da Alcazar e retirassem do gerenciamento os cadastros associados a Flávio Bolsonaro e a uma conta pessoal do advogado. Às 10h21, o banco respondeu que as contas haviam sido excluídas do contrato, conforme solicitado.
Em nota, a assessoria do senador afirmou que ele “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”. Segundo a defesa, o próprio e-mail demonstraria que a associação era indevida e que a solicitação ao banco buscava corrigir a situação. Flávio também classificou as informações como falsas e afirmou que os responsáveis pela divulgação de notícias que considera inverídicas deverão responder na Justiça.
Tomaz negou que tenha dividido uma conta bancária com o senador. “Os dois nunca dividiram conta bancária. O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário”, declarou. O advogado também afirmou que interpretar o documento como indício de participação econômica ou societária seria uma inferência sem fundamento.

Relação com o jato executivo
A Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, tem Tomaz como único sócio. A empresa detinha 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., companhia responsável por uma das cotas do jato Embraer Legacy 650, de matrícula PP-NLR, adquirido em 2023.
Foi nessa aeronave que Flávio viajou, em janeiro de 2025, entre Brasília e Fort Lauderdale, na Flórida, nos Estados Unidos, em um deslocamento de ida e volta acompanhado por Tomaz. Na época, os outros dois cotistas do avião eram Laerte Cosentino, dono da Totvs, e a Prime You, empresa que tinha Daniel Vorcaro entre seus sócios.
A viagem foi revelada pela revista piauí em 23 de setembro deste ano. Questionado pela publicação, Flávio disse que viajou de carona, a convite do advogado, por serem amigos. Tomaz, por sua vez, afirmou que desconhecia tanto a participação da Prime You na aeronave quanto a ligação da empresa com Vorcaro.
Ao analisar os documentos bancários, a PF apontou que o cadastro de Flávio como usuário master indicaria um nível elevado de acesso e gerenciamento da conta da Alcazar. Para os investigadores, essa condição poderia sustentar a hipótese de uma participação econômica ou societária de fato do senador na empresa.
O relatório também destaca que a holding não mantinha apenas uma estrutura societária isolada, pois possuía um terço da empresa responsável pelo jato. Segundo a investigação, um eventual vínculo de Flávio com a Alcazar poderia ajudar a esclarecer suas relações indiretas com a Fraction 024.
O cadastro bancário, porém, não comprova por si só que o senador fosse sócio da holding ou tivesse participação financeira na empresa. Flávio e Tomaz contestam essa interpretação e negam qualquer vínculo econômico entre eles.
Aeronave também foi usada por Alexandre de Moraes
O Legacy 650 também foi utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e por sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, em 22 de agosto de 2025, conforme informação divulgada pelo colunista Lauro Jardim, do Globo.
Outro relatório da PF, apresentado pelo ministro André Mendonça ao plenário do STF, aponta que, em maio de 2025, Vorcaro negociou com Viviane um contrato de R$ 50 milhões. O acordo previa a cessão da cota da Prime You na aeronave, além de R$ 10 milhões destinados à manutenção do avião, como pagamento por serviços cuja natureza não foi especificada no material citado.
O escritório Barci de Moraes Associados, ligado a Viviane e aos filhos, já havia firmado outro contrato com o Banco Master, no valor de R$ 131 milhões, dos quais R$ 80 milhões teriam sido pagos.
Vorcaro foi sócio da Prime You entre setembro de 2021 e setembro de 2025. Quando a viagem de Flávio no Legacy se tornou pública, o senador ironizou a associação com o empresário nas redes sociais: “Ainda bem que na época o avião era de Willer”.
Viagens de lazer com familiares
Os documentos analisados pela PF também apontam que Tomaz teria custeado deslocamentos de Flávio e de familiares do senador por meio de outra empresa, a Cathedral Holding, utilizada como intermediária na compra de passagens aéreas.
Para os investigadores, o uso da companhia em viagens pessoais merece atenção porque sugere que sua atuação não se restringia a relações societárias ou patrimoniais. A empresa também teria sido utilizada para viabilizar deslocamentos particulares.


Entre os registros encontrados no celular de Tomaz está uma reserva para 23 de maio de 2025 em um Bombardier Challenger 350, com saída de Cascais, em Portugal, e destino registrado em Nice, na Riviera Francesa. Segundo a apuração relatada por Malu Gaspar, o destino final da viagem seria Mônaco, onde fica a região dos cassinos de Monte Carlo.
A lista de passageiros incluía Flávio, a mulher dele, Fernanda Bolsonaro, as filhas do senador, Tomaz, sua mulher, Flávia Corrêa, e outros familiares.
Também há registro de uma reserva para 11 de abril de 2025, em outro voo de um Bombardier Challenger 350 entre Lisboa e Nice. Nesse deslocamento, os passageiros indicados eram Flávio, Tomaz e suas respectivas mulheres.
Dois meses antes da viagem a Mônaco, em março de 2025, Flávio e Tomaz participaram de um safári na África do Sul com o senador Weverton Rocha (PDT-MA), que também é alvo de investigações relacionadas ao escândalo do INSS, conforme noticiado pelo Globo.
Questionado sobre os deslocamentos, Tomaz afirmou que as viagens foram de lazer e que os familiares embarcaram como convidados, sem pagamento ou contrapartida de qualquer natureza.
Mensagens por aplicativo que apaga conversas
A investigação também identificou conversas entre Flávio e Tomaz por meio do Confide, aplicativo de comunicação privada que utiliza criptografia e oferece recursos para impedir capturas de tela e apagar mensagens automaticamente.
Segundo a PF, o número de telefone do senador aparecia entre os contatos favoritos do advogado no aparelho analisado. O serviço apresenta essas funcionalidades como mecanismos para preservar a privacidade das conversas e evitar a permanência de registros digitais.
O uso do aplicativo, por si só, não comprova irregularidade nas comunicações. Os investigadores, no entanto, reuniram esses registros no conjunto de informações que buscam esclarecer as relações entre o senador, o advogado e empresas ligadas à aeronave.
Íntegra das manifestações
Em sua nota, Flávio Bolsonaro afirmou que nunca manteve conta bancária tendo Willer Tomaz ou empresas ligadas a ele como usuário master. O senador sustentou que o e-mail ao Santander comprovaria uma vinculação indevida e que a solicitação buscava justamente desfazê-la. Também declarou que as informações surgem em período eleitoral, classificou a divulgação como fake news e afirmou que os responsáveis deverão responder na forma da lei.
“O senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa.
O próprio e-mail apresentado comprova justamente que a vinculação era indevida, tanto que solicita a desvinculação. Ou seja, o pedido só reforça que qualquer possibilidade de associação existente estava errada e precisava ser corrigida.
Essas insinuações surgem em pleno período eleitoral e exigem responsabilidade. A divulgação de Fake News é crime eleitoral e os responsáveis deverão responder na forma da lei”, diz o comunicado.
Tomaz, por sua vez, disse manter apenas uma relação de amizade com Flávio, sem vínculo financeiro ou societário. O advogado afirmou que o e-mail não comprova o compartilhamento de conta e classificou como ilação a hipótese de participação econômica ou societária do senador na Alcazar Holdings.
“O advogado Willer Tomaz repudia as inverdades reiteradas na reportagem. Com o senador Flávio Bolsonaro mantém apenas amizade, sem nenhum vínculo financeiro ou societário.
Os dois nunca dividiram conta bancária. O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário. Extrair desse documento uma “eventual participação econômica ou societária” é ilação.
Os deslocamentos citados foram viagens de lazer com as famílias, que embarcaram como convidadas, sem pagamento ou contrapartida de qualquer natureza.
Converter conjecturas em denúncias, em plena campanha eleitoral, tem o evidente propósito de interferir no pleito. A exposição de dados sigilosos de seu celular e iCloud integra o vazamento criminoso já investigado pela Polícia Federal, e os autores responderão na Justiça”, disse.
