Mesmo depois de tantos hits e conquistas internacionais, cantora encontra novas maneiras de ocupar o palco e se comunicar com o público - Foto: Divulgação / Fred Othero
Confesso que fui assistir à Equilibrivm Tour, neste sábado (22), em Niterói, esperando um grande show de Anitta. Isso, por si só, não seria exatamente uma surpresa. Afinal, tamanho de produção, multidão, coreografias e hits são elementos que já fazem parte da carreira da cantora. O que eu não esperava era encontrar uma Anitta tão pouco preocupada em repetir a fórmula que a levou até aqui. E talvez esteja justamente aí o maior acerto do espetáculo.
Depois de uma carreira construída em cima de sucessos que atravessaram fronteiras, Anitta poderia ter escolhido o caminho mais confortável: reunir os maiores hits, colocar uma superprodução no palco e deixar o público cantar aquilo que já conhece. Seria uma escolha segura e, provavelmente, muito eficiente.
Mas a Equilibrivm Tour faz praticamente o contrário.
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A cantora coloca uma fase nova da carreira no centro da experiência e “obriga” o público a entrar nesse universo com ela. É uma decisão corajosa, especialmente para uma artista que tem um repertório capaz de transformar qualquer estádio em um enorme karaokê. E o público compra a ideia.
Essa talvez seja a primeira surpresa da noite. As músicas novas não parecem ocupar o espaço de um intervalo entre um hit e outro. Elas são o próprio espetáculo. E, quando a plateia canta, acompanha as coreografias e reage às faixas, fica evidente que Anitta conseguiu fazer algo que nem sempre é fácil para artistas pop: apresentar uma nova identidade sem apagar a anterior.

A Equilibrivm Tour não parece uma comemoração do que Anitta já foi. Parece uma apresentação de quem ela quer ser agora. Isso muda completamente a maneira de enxergar o show.
A produção continua sendo grandiosa, mas não é ela que conduz a experiência. Os recursos visuais estão a serviço de uma narrativa. Há uma preocupação evidente em criar uma atmosfera que atravesse o público antes mesmo de a cantora aparecer no palco. E é nesse ponto que a proposta ganha personalidade.
Anitta transforma a apresentação em uma experiência que mistura música, performance, espiritualidade, sensualidade, brasilidade e entretenimento. São universos que poderiam entrar em conflito, mas que encontram algum equilíbrio dentro da lógica criada para o espetáculo.
Nem tudo precisa ser explicado. E isso também é uma qualidade.
Há símbolos, referências e escolhas visuais que podem provocar interpretações diferentes. Para mim, isso é muito mais interessante do que uma produção que entrega ao público exatamente o que ele deve pensar.
A brasilidade também aparece de maneira menos óbvia do que se poderia imaginar.
Não é uma tentativa de colocar uma bandeira do Brasil no palco e chamar aquilo de identidade nacional. A mistura está na música, nos ritmos, nos instrumentos e nas referências.
Quando Gilberto Gil aparece em “Andar com Fé” ou Djavan é incorporado ao repertório com “O Azul”, a cantora estabelece uma conversa com uma tradição musical que vai muito além do pop.
E esse talvez seja um dos pontos que mais me chamaram atenção: Anitta não parece interessada em esconder as referências que formaram a música brasileira. Pelo contrário.
Ela as coloca dentro de um espetáculo pensado para uma estrela pop que também construiu uma carreira internacional.
É uma combinação interessante.
Ao mesmo tempo em que a cantora mantém a dimensão pop que o público espera, existe espaço para ritmos e sonoridades que ampliam a experiência. A banda também ajuda a transformar essas escolhas em algo mais orgânico, dando peso às músicas e evitando que tudo dependa de bases pré-programadas e efeitos.
Mas há uma questão ainda mais importante. Anitta já chegou a um ponto da carreira em que não precisa convencer ninguém de que é capaz de fazer sucesso. Ela já fez.
Talvez por isso exista uma liberdade maior para experimentar.
A artista que sobe ao palco em Niterói parece menos preocupada em receber aprovação e mais interessada em apresentar uma visão. Isso aparece inclusive na maneira como ela ocupa o palco.
Anitta não depende apenas da voz ou da dança. Existe atuação. Existe interpretação. Existe domínio de cena.
Ela sabe quando provocar, quando sorrir, quando diminuir o ritmo e quando transformar a apresentação em uma grande explosão pop.
É uma habilidade que, às vezes, acaba escondida quando se fala apenas sobre números, hits e repercussão internacional. Mas está ali.
E é justamente essa capacidade de controlar o espetáculo que faz com que a Equilibrivm Tour tenha momentos tão diferentes sem parecer completamente desconectada.
A experiência também não termina quando começa o show.

As ativações e propostas associadas ao conceito de bem-estar ampliam a ideia do álbum e ajudam a transformar a apresentação em algo maior do que uma sequência de músicas.
É uma estratégia inteligente.
Hoje, um grande show não precisa mais ser apenas aquilo que acontece durante as duas horas em que o artista está no palco. A experiência começa antes, continua durante a apresentação e permanece depois, principalmente nas redes sociais.
Anitta entendeu isso há bastante tempo. A diferença é que, desta vez, existe um conceito que amarra essas diferentes partes.
E então chegam os hits.
Quando as músicas mais conhecidas aparecem com maior força, a sensação é curiosamente diferente. Não existe aquela ansiedade para saber quando Anitta finalmente vai cantar o sucesso que todo mundo conhece.
O público já foi levado para outro lugar. Os hits deixam de ser obrigação e passam a funcionar como celebração.
Para mim, esse é um dos melhores sinais de maturidade artística que o show apresenta.
Anitta não precisa passar duas horas lembrando ao público de onde veio porque está mais interessada em mostrar para onde está indo. É uma diferença pequena na aparência, mas enorme na construção de uma carreira.
A Equilibrivm Tour não é “perfeita”. Algumas escolhas certamente vão dividir opiniões. A mistura entre espiritualidade, sensualidade e referências culturais pode causar estranhamento em parte do público. E um espetáculo tão conceitual inevitavelmente corre o risco de parecer excessivo em determinados momentos.
Mas prefiro um artista que arrisca a provocar alguma discussão a outro que entrega exatamente aquilo que todos esperavam.
Depois de tantos anos de carreira, talvez a maior conquista de Anitta seja justamente ter chegado ao ponto em que pode escolher não repetir a própria fórmula.
Em Niterói, o que vi foi uma cantora tentando abrir uma nova janela para o público, sem fechar as portas de tudo aquilo que construiu. E isso, para uma estrela pop acostumada a transformar sucesso em combustível, é uma mudança e tanto.
No fim, saí com uma impressão bastante clara: a Equilibrivm Tour não foi criada para lembrar ao público quem é Anitta.
Foi criada para apresentar uma nova versão dela.
E talvez seja exatamente por isso que o espetáculo funcione tão bem.
