Produção aposta em música e emoção para contar a trajetória de uma das maiores artistas brasileiras - Foto: Divulgação
Há espetáculos que apenas contam uma história. Outros conseguem fazer o público sentir que está diante de um pedaço vivo dela. “Tarsila, A Brasileira” pertence ao segundo grupo. A megaprodução apresentada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro no último fim de semana, transforma a trajetória de Tarsila do Amaral em uma experiência visual e sonora que ultrapassa a simples biografia e se firma como uma celebração da arte brasileira.
Com Claudia Raia à frente da produção e também no papel principal, o musical entrega uma montagem de grande porte, com acabamento que pouco deve aos grandes espetáculos internacionais. O palco histórico do Municipal, com sua arquitetura marcada pelo luxo e pela tradição cultural, se torna o cenário ideal para uma narrativa que mistura modernismo, paixão, política, identidade e a busca de uma mulher por liberdade.
Dividido em dois atos, o espetáculo acompanha diferentes fases da vida de Tarsila, desde a infância no interior paulista até o reconhecimento como uma das maiores artistas do país. A construção dramatúrgica encontra nas músicas o caminho para conduzir o público por momentos decisivos da trajetória da pintora, revelando seus sonhos, conflitos, amores e as transformações que moldaram sua obra.
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Um dos grandes méritos da montagem está em apresentar Tarsila não apenas como um símbolo do modernismo brasileiro, mas como uma mulher de carne e osso, com desejos, dúvidas e contradições. A interpretação de Claudia Raia aposta na sensibilidade para mostrar uma artista inquieta, que buscava romper limites e encontrar uma maneira própria de representar o Brasil.
A história ganha ainda mais força quando o espetáculo mergulha no período em que Tarsila viveu entre o Brasil e a França. As diferenças culturais, os encontros entre sotaques e referências aparecem em números musicais que ajudam a construir a personalidade da personagem. “Souvenir de Capivari” surge como um dos momentos que sintetizam essa mistura entre memória, origem e descoberta.
A montagem também acerta ao revisitar um dos capítulos mais importantes da cultura nacional: a Semana de Arte Moderna de 1922. A presença do Grupo dos Cinco (formado por Tarsila, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia) ganha vida no palco com energia e dinamismo.

O romance entre Tarsila e Oswald de Andrade, interpretado por Jarbas Homem, recebe uma abordagem que combina encanto e drama. O relacionamento que ficou conhecido como “Tarsilwaldo” é apresentado em sua intensidade, passando pelo fascínio inicial, pela paixão e também pelas dores provocadas pelas escolhas do escritor.
É justamente nesse equilíbrio entre o brilho artístico e as fragilidades pessoais que o musical encontra sua maior potência. A trajetória de Tarsila não é romantizada: suas perdas, decepções e momentos difíceis aparecem como parte de uma caminhada marcada pela reinvenção.
O retorno ao Rio
O espetáculo também reserva espaço para homenagens a outros grandes nomes da cultura brasileira, reforçando a ideia de que a arte nacional é construída por encontros e influências diversas. Ao final da apresentação, fica a sensação de que o público não apenas conheceu melhor a pintora, mas saiu carregando um pouco das cores e da sensibilidade que marcaram sua trajetória.
Celebrado pelo público, “Tarsila, A Brasileira” também marca o retorno dos grandes musicais ao palco do Theatro Municipal do Rio, reafirmando a força das grandes produções nacionais e o papel dos espaços culturais históricos na valorização da arte brasileira. Para quem ainda não assistiu, a montagem ganha uma nova oportunidade: o espetáculo retorna ao Rio entre os dias 10 e 13 de setembro, no Vivo Rio. Os ingressos começam a ser vendidos a partir desta quarta-feira (5), e as sessões dos dias 10 e 11 terão 50% de desconto.
“Tarsila, A Brasileira” é uma produção que entende a importância de valorizar personagens fundamentais da história do país. Mais do que um musical sobre uma artista, é uma declaração de amor à cultura brasileira. Com sua grandiosidade, emoção e cuidado estético, a montagem mostra que histórias nacionais também podem ocupar palcos com a mesma força dos grandes espetáculos mundiais.

