Gilberto Gil levou sua música e brasilidade ao Palco Mundo do Rock in Rio - Foto: Divulgação / Rock in Rio / Moriva
O Rock in Rio gosta de grandiosidade. Telões, fogos, passarelas, efeitos especiais, coreografias e uma indústria inteira empenhada em transformar qualquer apresentação em um acontecimento. Então chega Gilberto Gil, pega a guitarra e começa a cantar. E, de repente, fica evidente que talvez o espetáculo nunca tenha precisado de tanta coisa assim.
Aos 84 anos, Gil entrou no Palco Mundo nesta segunda-feira (7) com algo que não se compra com orçamento milionário: repertório.
É uma palavra cada vez mais perigosa na música brasileira. Repertório exige tempo, composição, memória e, principalmente, canções que sobrevivam ao artista que as lançou. Gil tem de sobra. O problema é que, diante dele, muita gente parece estar tentando descobrir ainda como fabricar uma carreira que dure mais do que uma turnê.
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“Cérebro eletrônico” abriu caminho para “Pela internet”, duas canções separadas por décadas, mas unidas por uma característica incômoda: continuam fazendo sentido. Gil imaginou transformações tecnológicas quando boa parte do público sequer sabia direito o que era a internet. Hoje, enquanto o mercado corre atrás de tendências produzidas em laboratório, ele simplesmente canta uma música de 1997 e parece estar falando do presente.
Não é pouca coisa.
Também não foi preciso transformar a apresentação em uma retrospectiva melancólica. Gil passou pelo reggae de Bob Marley, pelo ijexá, pelo rock, pela disco music, pelo forró e pelo frevo como quem lembra que a música brasileira nunca foi obrigada a escolher uma identidade única. É justamente aí que o show ganha força: Gil não cabe no festival; é o festival que precisa encontrar espaço para caber nele.
Quando Liminha apareceu para “Vamos fugir”, o palco ganhou outro peso. Não havia ali a necessidade de vender uma reunião histórica como se fosse um produto de luxo. Bastava a música. O encontro funcionou porque os dois sabem de onde vieram e, sobretudo, sabem o que construíram.
Depois vieram “Realce” e “Palco”, e a plateia respondeu como costuma responder quando reconhece alguma coisa que não precisa ser apresentada por um algoritmo.
Gil também fez o que artistas gigantes costumam fazer e os medianos raramente conseguem: dividiu a própria luz. Rita Lee apareceu em “Ovelha negra”. Cazuza e Frejat chegaram com “Pro dia nascer feliz”. Bob Marley atravessou o repertório. Caetano Veloso surgiu em “Atrás do trio elétrico”.
Não é apenas uma lista de homenagens. É uma declaração de princípios.
Gil sabe que a grandeza de um artista não está em fingir que inventou o mundo sozinho. Está em reconhecer quem ajudou a construí-lo.
E então vem “Aquele abraço”. O Rio aparece no meio daquela multidão, e o Rock in Rio, que costuma vender a ideia de ser uma experiência universal, volta por alguns minutos a lembrar que também existe uma cidade do lado de fora dos portões.
Talvez seja essa a ironia mais interessante da noite. Um festival criado para celebrar o rock precisou de Gilberto Gil para lembrar que música popular não respeita fronteiras de gênero. O baiano passou pelo reggae, pelo forró, pelo frevo, pelo pop e pelo rock sem pedir autorização a ninguém.

Enquanto isso, a indústria segue tentando decidir qual será o próximo grande fenômeno.
Gil já descobriu isso há muito tempo: o próximo fenômeno é sempre provisório; uma boa canção não tem prazo de validade.
Quando o cantor menciona que aquele pode ser seu último Rock in Rio, a frase naturalmente desperta a ideia de despedida. Mas reduzir a apresentação a isso seria quase uma falta de respeito com o que aconteceu no palco. Gil não estava ali para pedir licença para sair de cena. Estava ali para mostrar o tamanho do espaço que ocupou.
A plateia do #RockInRio falou por todos nós! Durante o show desta segunda-feira (7), Gilberto Gil comentou que talvez esse seja o último festival que ele venha, e a resposta foi imediata: um sonoro “NÃO” tomou conta da Cidade do Rock. pic.twitter.com/mojWwaVfqz
— Hugo Gloss (@HugoGloss) September 8, 2026
E talvez seja justamente esse o incômodo. Não é a idade de Gilberto Gil que chama atenção. É perceber quantos artistas muito mais jovens já parecem antigos.
No Palco Mundo, o baiano não precisou disputar atenção com ninguém. Fez algo mais difícil: colocou a música no centro de um festival acostumado a transformar tudo em espetáculo.
