No reencontro com o Rio, cantor mostrou que sua obra permanece viva e indispensável - Foto: Divulgação
“Rio, voltei!”. Bastaram duas palavras para Djavan estabelecer o tom da noite. Antes mesmo de desfilar um repertório impecável de sucessos, o cantor fez questão de reverenciar a cidade que considera decisiva em sua trajetória. “Essa cidade me ensinou tudo. Me deu a luz, fez de mim quem eu sou hoje. Aprendi tudo no Rio de Janeiro. É um prazer imenso chegar e cantar para vocês. Tentaremos fazer com que essa noite seja lembrada sempre”, declarou, arrancando aplausos de uma Farmasi Arena completamente tomada pelo público.
Não foi apenas uma saudação. Foi uma declaração de gratidão de um artista que, embora nascido em Maceió, encontrou no Rio o palco ideal para transformar talento em legado. Ao improvisar os versos de “Delírio dos Mortais” — “Rio, podem dizer o que quiser, mas o xodó do povo é o Rio” — Djavan deixou claro que a estreia carioca da turnê “Djavanear 50 anos – Só sucessos” tinha um significado diferente. Era um reencontro entre um mestre da música brasileira e a cidade que ajudou a moldar sua identidade artística.
Há shows comemorativos que vivem da nostalgia. O de Djavan vai além. A apresentação funciona como uma reafirmação de que sua obra continua atual justamente porque nunca se prendeu ao tempo. Durante duas horas e meia, o cantor percorreu cinco décadas de carreira sem recorrer a artifícios para impressionar. A força estava onde sempre esteve: nas canções.
“Sina”, escolhida para abrir o espetáculo em um arranjo com influência africana, deu a dimensão do que viria pela frente. Vieram depois clássicos como “Samurai”, “Se…”, “Eu Te Devoro”, “Pétala”, “Lilás”, “Oceano”, “Meu Bem Querer”, “Flor de Lis” e “Um Amor Puro”, entre tantos outros. O público cantou praticamente todas do início ao fim, confirmando que poucas discografias da música brasileira atravessaram tantas gerações mantendo tamanho prestígio.
O aspecto mais impressionante talvez seja justamente a confiança de Djavan no próprio repertório. O roteiro é quase inteiramente composto por músicas autorais, um privilégio reservado a artistas cuja produção alcançou o status de patrimônio cultural. Não há necessidade de revisitar sucessos de terceiros ou buscar versões para manter a atenção da plateia. Sua obra basta.
Musicalmente, o espetáculo também impressiona. A big band conduz arranjos sofisticados sem tirar o protagonismo da voz inconfundível do cantor. A cenografia colorida acompanha a riqueza sonora, enquanto pequenas releituras renovam algumas faixas sem descaracterizá-las. Tudo acontece de forma natural, como se as canções continuassem evoluindo ao lado de seu criador.
Os momentos mais emocionantes vieram quando Djavan deixou a celebração dar lugar à memória. Antes de interpretar “O Vento”, prestou uma homenagem comovente a Gal Costa. “Ela foi a maior intérprete que eu já tive. Gravou 13 músicas minhas e era muito musical. Absorvia tudo com facilidade e me deu alegrias imensas gravando minhas canções. Eu dedico esse momento a ela com essa música que nós fizemos”, afirmou.
Também houve espaço para reverenciar o saxofonista norte-americano David Sanborn, lembrado na rara execução de “Quase de Manhã”. São detalhes que revelam um artista generoso com a própria história e consciente da importância daqueles que caminharam ao seu lado.
Mas, acima de qualquer homenagem, o grande protagonista da noite continuou sendo o próprio repertório. Mesmo quando o palco ficou reduzido ao violão e à voz, Djavan produziu alguns dos instantes mais intensos do espetáculo. Em tempos de produções grandiosas e excesso de tecnologia, bastou cantar “Meu Bem Querer” e “Oceano” para lembrar que emoção verdadeira ainda nasce da simplicidade.

A turnê celebra meio século de carreira, mas o palco não transmite qualquer sensação de despedida. Pelo contrário. Djavan canta com a tranquilidade de quem já não precisa provar mais nada e, justamente por isso, entrega uma apresentação segura, elegante e emocionante.
Quando “Lilás” abriu caminho para o bis e “Sina” voltou em clima de festa para encerrar a noite, a sensação era de que o espetáculo havia passado rápido demais. Talvez porque grandes artistas consigam esse efeito raro: fazer o tempo desaparecer.
Ao agradecer ao Rio, Djavan reconheceu a cidade que ajudou a construir sua história. Em troca, recebeu de volta um coro de milhares de vozes que transformou a estreia da turnê em uma celebração coletiva. Cinquenta anos depois do início da carreira, permanece incontestável: Djavan não apenas escreveu algumas das páginas mais importantes da MPB. Ele continua sendo uma delas.
