Presidente critica interferência externa nas eleições, condena o unilateralismo e afirma que democracia brasileira pertence aos brasileiros - Foto: Instagram / Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou a defesa da soberania e do multilateralismo no centro de seu discurso na abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22), em Nova York. Em uma fala marcada por referências às relações internacionais e ao cenário político brasileiro, Lula rejeitou qualquer relação de subordinação entre países e afirmou que a democracia brasileira deve ser decidida pelos próprios brasileiros.
Ao abordar a relação com os Estados Unidos, o presidente reconheceu a proximidade geográfica entre os dois países, mas disse que isso não significa aceitar uma posição de dependência.
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“A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável”, afirmou. Em seguida, declarou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Segundo Lula, o país deve buscar parceiros dispostos a construir uma agenda positiva, com foco no desenvolvimento. Ele também defendeu que diferenças ideológicas não impeçam uma maior integração entre os países vizinhos.
O discurso ocorreu em um contexto de tensão diplomática entre Brasília e Washington. A relação entre os dois governos foi afetada pela imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros por parte da administração de Donald Trump e por preocupações manifestadas pelo governo Lula sobre possíveis interferências externas no processo eleitoral brasileiro.
Lula também citou diretamente a disputa em torno da democracia e das eleições. O Brasil realizará a eleição presidencial em 4 de outubro, e o presidente disputa a permanência no cargo contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que foi recebido por Trump na Casa Branca em maio, durante uma viagem aos Estados Unidos.
“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, disse Lula.
Na sequência, o presidente afirmou que o país não aceitará interferências que, segundo ele, possam atingir a vontade popular.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano”, declarou.
Críticas ao tarifaço e defesa do Pix
As medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos também ocuparam parte do pronunciamento. Lula criticou o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) e afirmou que as tarifas passaram a ser utilizadas como instrumento de pressão nas relações internacionais.
“A Organização Mundial do Comércio respira por aparelhos”, afirmou o presidente. Para Lula, governos que cedem a países que utilizam tarifas como instrumentos de coerção e chantagem acabam produzindo consequências negativas para o comércio internacional.
Apesar das medidas impostas sobre produtos brasileiros, o presidente afirmou que o país deve registrar um novo recorde de exportações neste ano.
Lula também mencionou o Pix, sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, ao criticar pressões de empresas multinacionais. Segundo ele, o governo não pretende permitir que o sistema seja privatizado.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX”, declarou.
Crime organizado e inteligência artificial
O combate ao crime organizado foi outro tema abordado pelo presidente. Lula defendeu a ampliação da cooperação internacional para enfrentar o fluxo de armas e recursos financeiros utilizado por organizações criminosas.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.
Na área tecnológica, Lula direcionou críticas ao poder concentrado nas grandes empresas do setor. O presidente citou os chamados “tecno-oligarcas” e criticou uma corrida tecnológica que, segundo ele, ocorre sem limites éticos e sem a participação adequada das instituições multilaterais.
A regulamentação das plataformas digitais foi defendida como uma forma de enfrentar os efeitos da expansão das novas tecnologias e da inteligência artificial.
Defesa do multilateralismo
Ao tratar da ordem internacional, Lula apresentou a escolha entre diferentes modelos como uma questão central para o futuro da comunidade internacional.
“Somos chamados a optar entre multilateralismo ou unilateralismo, democracia ou extremismo, soberania ou subordinação”, afirmou.
O presidente também cobrou mudanças na estrutura da ONU, especialmente no Conselho de Segurança, e defendeu a diplomacia como caminho para a solução de conflitos internacionais.
A Assembleia Geral é formada pelos 193 Estados-membros da ONU e funciona como o principal fórum deliberativo da organização. Durante o Debate Geral, chefes de Estado e de governo apresentam suas prioridades e posições sobre os principais temas da agenda internacional.
Por tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar no Debate Geral desde 1955. Neste ano, Lula abriu a sessão e foi seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Meio ambiente e exploração de recursos naturais
A agenda ambiental também esteve entre os temas tratados por Lula. O presidente afirmou que o Brasil pode conciliar crescimento econômico, redução das emissões de gases de efeito estufa e preservação ambiental.
Ele destacou a redução do desmatamento na Amazônia, que, segundo o presidente, atingiu o menor patamar em 11 anos, além de apresentar o país como referência na produção de energia limpa. Lula voltou a defender a ideia de que a floresta possui maior valor econômico quando preservada.
Ao mesmo tempo, afirmou que o Brasil continuará buscando explorar recursos naturais estratégicos, incluindo os da Margem Equatorial e as chamadas terras raras, minerais considerados importantes para a transição energética.
A exploração, segundo Lula, deverá estar vinculada à geração de riqueza e tecnologia dentro do país. “Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro, e é em benefício dele que serão exploradas”, afirmou.
O presidente acrescentou que o acesso aos minerais brasileiros deverá ter como contrapartida a geração de valor no território nacional, a transferência de tecnologia e o abastecimento de setores considerados estratégicos.
O Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral ocorre entre 22 e 28 de setembro. O tema desta edição é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
