Pontífice criticou a atuação de líderes e defendeu o respeito ao Estado de Direito - Foto: Instagram / Vaticano
O papa Leão XIV aproveitou sua passagem pela França nesta sexta-feira (25) para fazer críticas à atual situação do sistema internacional. Em discurso na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, o pontífice afirmou que a ONU e outras instituições multilaterais atravessam uma crise de eficácia e alertou que o diálogo entre países corre o risco de se transformar em uma “farsa”.
“O diálogo é visto como um obstáculo à ação, em vez de um recurso para a paz, uma farsa em vez de uma oportunidade de buscar juntos o bem comum”, disse o pontífice.
A declaração ocorreu enquanto a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, é marcada por discussões acaloradas. Para Leão XIV, o enfraquecimento das instituições internacionais compromete justamente um dos instrumentos que deveriam contribuir para a busca da paz.
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Segundo o papa, o diálogo tem sido tratado como um obstáculo à ação, em vez de ser utilizado como um caminho para construir soluções conjuntas em torno do bem comum.
O pontífice também criticou autoridades que, segundo ele, não mantêm uma relação consistente com o Estado de Direito. Sem mencionar nomes, afirmou que pessoas em posições de poder recorrem às leis quando elas atendem aos próprios interesses e deixam de respeitá-las quando representam uma limitação.
A fala acontece em um momento de forte tensão diplomática. Durante a atual Assembleia Geral da ONU, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou destruir o Irã caso o país não aceitasse os termos para encerrar a guerra. Dias depois, dezenas de delegados deixaram o plenário durante o discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Leão XIV, que se tornou papa em maio de 2025, já havia provocado reação de Trump no início do pontificado após criticar a guerra no Irã. Em 2025, o presidente americano também anunciou que os Estados Unidos deixariam a Unesco.
Inteligência artificial preocupa pontífice
A inteligência artificial é outro dos principais temas da visita de Leão XIV à França. O papa voltou a defender uma reflexão sobre os rumos do desenvolvimento da tecnologia e alertou para o risco de a humanidade perder espaço diante de máquinas cada vez mais presentes na vida cotidiana.
Durante um discurso no Palácio do Eliseu, diante de autoridades francesas, afirmou que o avanço tecnológico precisa ser acompanhado por uma formação capaz de preparar as pessoas para decisões éticas.
“Se quisermos evitar perder nossa humanidade em meio a um ‘paraíso de máquinas’ que invade e condiciona nossa vida cotidiana, há uma necessidade urgente de educação para o discernimento ético”, falou o líder da igreja católica.
O pontífice descreveu como possível cenário futuro um “paraíso de máquinas” capaz de controlar e condicionar a vida na Terra. Para evitar esse resultado, defendeu a necessidade urgente de educação voltada ao discernimento ético. A preocupação com a inteligência artificial se tornou uma das marcas de seu pontificado, que tem pouco mais de um ano.
Viagem inclui Paris, Lourdes e Metz
Recebido no aeroporto de Paris-Orly pelo presidente Emmanuel Macron, pela esposa dele, Brigitte Macron, e por crianças que cantaram para o pontífice e pediram autógrafos, Leão XIV iniciou uma viagem de quatro dias pela França.
Antes de chegar ao país, o papa afirmou a jornalistas que pretendia transmitir uma mensagem de paz. Segundo ele, trata-se de uma mensagem especialmente importante diante do atual cenário internacional.
Ainda nesta sexta-feira, Leão XIV deveria conduzir uma celebração de oração na Catedral de Notre-Dame, em Paris. Será a primeira visita de um papa ao templo desde o incêndio de 2019, que quase destruiu a construção gótica.
O roteiro também prevê passagens por Lourdes, no sudoeste francês, e Metz, cidade próxima à fronteira com a Alemanha.
Papa reafirma posição contra morte assistida
A visita ocorre em uma França marcada pela separação entre Estado e religião, estabelecida pela legislação de 1905, e por uma redução gradual da ligação da população com a Igreja Católica no período pós-guerra.
Ao mesmo tempo, a Igreja francesa mantém divergências com o governo em temas relacionados à vida. Em 2024, o direito ao aborto foi incorporado à Constituição francesa. O país também aprovou uma lei que legaliza a morte assistida para adultos com doenças incuráveis.
Na sexta-feira, Leão XIV voltou a defender os ensinamentos da Igreja sobre a proteção da vida e criticou iniciativas relacionadas à morte assistida.
O papa também demonstrou preocupação com o uso da ciência e da tecnologia para finalidades que, segundo ele, podem priorizar o lucro. Entre os exemplos citados estão manipulação genética, gestação por substituição, comércio de órgãos humanos e a possibilidade de uma pessoa organizar a própria morte.
“Estou preocupado… com essas tendências da sociedade que correm o risco de transformar a ciência e a tecnologia em empreendimentos orientados pelo lucro, promovendo a manipulação genética, a gestação por substituição, o comércio de órgãos humanos ou a possibilidade de organizar a própria morte”, falou.
Encontro com vítimas de abusos
Outro momento importante da viagem será o encontro de Leão XIV com vítimas de abusos cometidos por integrantes da Igreja Católica na França no próximo domingo (27).
Um relatório divulgado em 2021 apontou que cerca de 330 mil crianças sofreram abusos praticados por membros do clero e por líderes leigos ligados à Igreja ao longo de sete décadas.
Depois da divulgação do documento, bispos franceses adotaram medidas de compensação e proteção. Sobreviventes, porém, continuam cobrando das autoridades religiosas demonstrações de responsabilização.
Alain Esquerre, de 66 anos, porta-voz de vítimas da instituição católica Notre-Dame de Bétharram, afirmou à Reuters que Leão XIV carrega a responsabilidade de declarar que “chega”.
O papa deverá se reunir no domingo, em Lourdes, com sete franceses que afirmam ter sofrido abusos cometidos por integrantes do clero.
A passagem pela França ocorre, assim, em meio a uma agenda que combina questões internacionais, tecnologia, defesa das posições da Igreja sobre temas ligados à vida e a tentativa de lidar com as consequências dos escândalos de abusos que atingiram a instituição no país.
