Composição de Ian Ruas e parceiros venceu disputa entre três finalistas na quadra da escola, na Zona Norte do Rio - Foto: Instagram
O Acadêmicos do Salgueiro já tem o samba que vai conduzir seu desfile no Carnaval 2027. A composição assinada por Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão foi escolhida na madrugada deste domingo (14), após uma disputa entre três sambas finalistas na quadra da escola, na Zona Norte do Rio.
O resultado foi divulgado depois das 5h. A obra vencedora será responsável por embalar na Marquês de Sapucaí o enredo “Laroyê Xica da Silva: A História por trás da História”, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira.
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A escolha do samba faz parte da preparação do Salgueiro para um desfile que pretende revisitar uma das histórias mais marcantes da trajetória da escola. Em 1963, a agremiação levou Xica da Silva para a Avenida e conquistou o título daquele ano com um desfile que se tornou referência em sua história.
Para 2027, a proposta é retomar o personagem histórico a partir de uma nova perspectiva. O enredo será construído com base em documentos inéditos, entre eles o testamento de Francisca da Silva, numa tentativa de apresentar aspectos da mulher que existiu por trás do mito criado ao longo do tempo.
“Com a descoberta do testamento de Francisca da Silva, vamos conhecer a mulher por trás do mito construído. É o Salgueiro se reencontrando com suas grandes narrativas, colocando em destaque a negritude, ancestralidade e resistência cultural”, afirmou Jorge Silveira.
Samba precisa contar a história
Para o carnavalesco, a escolha da composição também é parte fundamental da construção do desfile. O samba deverá acompanhar as imagens e os momentos planejados para o desenvolvimento do enredo no barracão.
“O samba precisa contar o enredo, precisa ilustrar as imagens que a gente tá criando no barracão. Precisa criar uma conexão entre a nossa comunidade e o canto dela para a Marquês de Sapucaí, e juntos formar o nosso projeto pro carnaval”, explicou.
Antes da final, os segmentos da escola participaram da programação na quadra ao som de sambas que marcaram a história do Salgueiro. A apresentação contou com a voz do intérprete oficial Igor Sorriso e com a bateria Furiosa, comandada pelos mestres Guilherme e Gustavo.
Viviane Araújo mira novo título
À frente dos ritmistas há quase duas décadas, a rainha de bateria Viviane Araújo também falou sobre a expectativa para o desfile de 2027. O Salgueiro não conquista o título do Grupo Especial desde 2009.
“A gente não ganha desde 2009. A gente tá buscando isso há tantos anos. Acho que esse ano a gente vai fazer de tudo com esse enredo e resgatar esse título pro Salgueiro”, disse.
O mestre Gustavo destacou a importância de revisitar Xica da Silva para a própria memória da agremiação. “O ‘Xica da Silva’ foi um enredo icônico, é icônico pra nossa história do Salgueiro e fazer essa releitura é muito importante e necessário pra galera poder entender um pouco mais da história da Xica da Silva”, afirmou.
Releitura de Xica da Silva
Com o enredo de Jorge Silveira, o Salgueiro pretende abordar a trajetória de Xica da Silva a partir de temas como negritude, ancestralidade, resistência cultural e protagonismo feminino. A escola da Tijuca também promete lançar um novo olhar sobre a personagem, deixando em segundo plano a imagem construída pelo imaginário popular para destacar a mulher por trás da narrativa conhecida.
A proposta representa ainda uma retomada de um dos capítulos mais simbólicos da história salgueirense. A versão apresentada em 1963 transformou Xica da Silva em personagem de um dos desfiles mais lembrados da escola e terminou com a conquista do campeonato.
No Carnaval 2027, o Salgueiro será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval na Marquês de Sapucaí.
Confira a letra do samba
Título: Laroyê Xica da Silva: A História por Trás da História
Compositores: Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão
Intérpretes: Grazzi Brasil, Dowglas Diniz e Vitor Cunha
Arreda, homem, que essa preta vai girar
Meu tambor vai ecoar em resistência!
Evoco as divas, as Marias, as baianas
Depravadas, puritanas, pra clamar nossa insolência!
Exu comanda esse terreiro
Eis aqui o verdadeiro nome de Sinhá
Francisca, mãe da encruzilhada, rosa indomada, deusa da rua!
Na procissão da academia, negra fidalguia se perpetua
Incorporei no atabaque do meu torrão
Festa de ostentação ao poder da negritude
Dilacerei as vestes da servidão
Meu corpo foi invasão, fetiche da branquitude!
Nas lentes de outros olhos
O foco na nossa verdade é menor
Tal qual a trama da atriz
Que encenou, de uma vida, um capítulo só
Eu, que já fui outras Xicas, refaço o roteiro, no chão que me fez triunfar
Gira, desce o morro meu Salgueiro, meu quilombo pioneiro, renasci nesse gongá!
Firma axé na segunda-feira, é macumba a noite inteira, saravá, alafiá
Mãe, guardiã, fruto do afã
De um ventre escravo e um nobre senhor
Matriz, mecena de toda arte, que leva em seu estandarte, a simples audácia do amor
Louvai, Brasil! A filha de Òrun despertou!
Laroyê! Xica da Silva!
Laroyê! Ê Mojubá!
Toda mulher tem direito à própria história
Meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar
