O Brasil continua sendo vendido ao mundo como uma promessa. Uma pesquisa foi realizada sobre reputação nacional, a “Marca Brasil”, conduzida pela OnStrategy, revela um país que reconhece a própria grandeza, mas fracassa em convertê-la em influência internacional consistente. O levantamento, realizado entre outubro de 2025 e março de 2026, ouviu 470,6 mil pessoas (192,4 mil brasileiros e 278,2 mil estrangeiros de 27 países) e expõe um retrato contraditório: o Brasil é admirado por sua natureza, estilo de vida e potencial, mas segue associado à insegurança, instabilidade política e dificuldade de liderança.
Mais do que um estudo de imagem, a pesquisa escancara um impasse histórico da identidade brasileira: o país acredita em si mesmo mais do que o mundo acredita nele.
Os dados revelam que brasileiros e estrangeiros enxergam o Brasil de forma semelhante em muitos aspectos. A percepção positiva existe, mas é constantemente atravessada pela sensação de desorganização estrutural. O resultado é uma imagem internacional considerada “moderada”, um país relevante culturalmente, mas incapaz de consolidar reputação de potência confiável.
A pesquisa aponta que o turismo continua sendo o principal motor da imagem brasileira. O Brasil é visto como “bonito por natureza”, um território associado a biodiversidade, alegria e possibilidades. Essa percepção, porém, não se converte automaticamente em prestígio político ou econômico.
O problema central identificado pelo levantamento é a segurança pública. Entre os brasileiros, a nota atribuída ao tema foi 5,4. Entre estrangeiros, caiu para 4,4 (o pior índice da pesquisa). O dado mostra que a violência urbana ultrapassou as fronteiras nacionais e se consolidou como um componente permanente da imagem do país no exterior.
A insegurança brasileira deixou de ser uma questão doméstica para se tornar um elemento de reputação internacional.

A narrativa que o Brasil não consegue controlar
A pesquisa sugere que o Brasil sofre menos por ausência de atributos positivos e mais pela incapacidade de organizá-los em uma narrativa global eficiente. O país possui patrimônio ambiental, diversidade cultural, força agrícola, projeção esportiva e mercado consumidor relevante. Ainda assim, continua sendo percebido como uma nação de potencial interrompido.
Essa contradição aparece quando brasileiros e estrangeiros avaliam política, economia e liderança praticamente da mesma forma.
Ambiente político, econômico e social
- Percepção interna: 5,3
- Percepção externa: 5,2
Governo e liderança
- Percepção interna: 5,4
- Percepção externa: 5,3
Os números mostram algo raro: há pouca diferença entre a maneira como o brasileiro vê o país e a maneira como ele é percebido internacionalmente. Isso desmonta um discurso recorrente de que o exterior “não conhece” o Brasil. Conhece, e parece enxergar os mesmos problemas apontados internamente.
A pesquisa da OnStrategy indica que o Brasil não enfrenta apenas uma crise de imagem, mas uma crise de coerência institucional. O país produz símbolos globais de sucesso, mas mantém dificuldades crônicas em segurança, estabilidade política e continuidade administrativa. O resultado é um paradoxo: o Brasil desperta fascínio, mas não transmite previsibilidade.
O peso da insegurança na reputação nacional
A distância entre as avaliações sobre turismo e segurança pública ajuda a entender a armadilha reputacional brasileira. O mundo deseja visitar o Brasil, consumir sua cultura e admirar suas paisagens, mas hesita em associá-lo à estabilidade.

Essa percepção afeta investimentos, diplomacia, negócios e influência internacional. Países não são avaliados apenas por indicadores econômicos; são avaliados pela confiança que conseguem transmitir. E confiança depende de continuidade, governança e sensação de segurança.
A pesquisa mostra que o Brasil continua preso a uma lógica de branding baseada em estereótipos turísticos. Enquanto outras nações transformaram cultura e inovação em instrumentos de influência geopolítica, o Brasil ainda depende da imagem de paraíso natural, uma estratégia insuficiente para sustentar relevância global no século XXI.
Entre potência simbólica e fragilidade estrutural
Os dados da pesquisa revelam um país que não sofre por invisibilidade. O Brasil é conhecido. O problema é a maneira como é lembrado.
Ao ouvir cidadãos de países como Estados Unidos, China, Japão, Índia, Canadá, México e Argentina, o levantamento conclui que o país ocupa uma posição ambígua no imaginário internacional: é admirado pela estética e pela cultura, mas questionado pela capacidade de organização e segurança.
O estudo mostra que o Brasil construiu uma identidade forte, porém incompleta. Há reconhecimento de potência cultural e humana, mas falta credibilidade institucional para transformar essa força simbólica em autoridade internacional duradoura.
No fim, a pesquisa da OnStrategy revela um país que continua tentando convencer o mundo de um futuro que ele próprio ainda não conseguiu consolidar no presente.
