Queda nas vendas para Washington foi compensada pelo avanço das exportações para outros mercados -Foto: Divulgação / Casa Branca
O Brasil chega a mais uma rodada de negociações com os Estados Unidos diante de uma situação que, apesar das dificuldades provocadas pelo tarifaço, também revela uma oportunidade estratégica. A relação comercial com Washington continua sendo importante e não deve ser tratada como secundária, mas os números do primeiro semestre de 2026 mostram que o país já não precisa olhar para o mercado norte-americano como se dele dependesse sozinho para sustentar suas exportações.
Entre janeiro e junho, as vendas brasileiras ao exterior alcançaram US$ 184,77 bilhões, crescimento de 11,5% em relação ao mesmo período de 2025 e o melhor resultado para um primeiro semestre desde o início da série histórica. O superávit comercial chegou a US$ 42,4 bilhões, alta de 40,3%, enquanto a projeção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para o saldo comercial de 2026 foi elevada de US$ 72,1 bilhões para US$ 90 bilhões.
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O dado mais interessante, porém, não está apenas no tamanho desse recorde, mas na maneira como ele foi construído. Enquanto as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram cerca de US$ 2,6 bilhões no primeiro semestre, as vendas para outros 17 destinos aumentaram US$ 19,3 bilhões. A diferença mostra que, diante da pressão exercida por Washington, o Brasil encontrou espaço para ampliar negócios em outras partes do mundo.
Essa é uma constatação que deveria ocupar um lugar central na política externa e comercial brasileira. O país não precisa escolher entre Estados Unidos e China, entre Europa e Ásia ou entre Ocidente e Oriente. Precisa, na realidade, ter capacidade de conversar com todos eles e construir relações comerciais suficientemente amplas para que nenhuma potência consiga transformar sua própria decisão econômica em uma ameaça incontornável para o Brasil.
É evidente que os Estados Unidos continuam sendo um mercado relevante. O país possui uma economia gigantesca, empresas com enorme capacidade de consumo e uma relação comercial histórica com o Brasil. Por isso, a negociação entre os dois governos merece atenção e deve ser conduzida com pragmatismo. O que não faz sentido é transformar essa importância em dependência.
A experiência recente serve justamente para mostrar os riscos dessa dependência. Quando Washington impõe tarifas e dificulta a entrada de produtos brasileiros, empresas nacionais são afetadas e determinados setores precisam procurar alternativas. Quanto maior a concentração das exportações em poucos destinos, maior é o poder de pressão exercido pelo comprador. Quanto mais diversificados forem os mercados, maior será a margem de negociação de quem vende.

É por isso que a aproximação com a União Europeia merece ser observada com atenção. O acordo entre Mercosul e bloco europeu cria uma possibilidade concreta de ampliação das relações comerciais entre os dois lados do Atlântico, envolvendo 31 países, cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto conjunto superior a US$ 22 trilhões. Ainda existem obstáculos e disputas, inclusive relacionadas a questões sanitárias e protecionistas, mas a dimensão desse mercado mostra que o Brasil possui alternativas relevantes quando decide ampliar seu horizonte.
O mesmo raciocínio vale para a Ásia. A negociação de um acordo entre Mercosul e Japão, a criação de um grupo de trabalho com a Coreia do Sul e as conversas com o Vietnã apontam para uma estratégia que pode produzir resultados importantes no médio e longo prazo. A Índia, embora apresente dificuldades maiores por causa de suas tarifas e da proteção ao mercado interno, também representa um mercado que nenhum país com ambição comercial deveria ignorar.
Há ainda oportunidades no Canadá e nos Emirados Árabes Unidos, além de outros mercados que podem ganhar espaço à medida que o Brasil consiga estabelecer novos acordos e reduzir barreiras comerciais.
Diversificar, portanto, não significa abandonar os Estados Unidos nem escolher adversários para substituir antigos parceiros. Significa compreender uma regra básica da economia internacional: países negociam melhor quando possuem alternativas. Um exportador que tem apenas um comprador fica vulnerável às decisões desse comprador. Um país que consegue vender para dezenas de mercados ganha capacidade para absorver choques, negociar melhores condições e proteger sua própria economia.

Nesse sentido, existe uma ironia no atual conflito comercial. O tarifaço criado por Washington pode acelerar justamente uma transformação que o Brasil deveria perseguir independentemente de qualquer governo estrangeiro: a construção de uma pauta de comércio exterior menos concentrada e mais global.
O Brasil tem dimensões continentais, uma das maiores economias do mundo e uma estrutura produtiva capaz de atender diferentes mercados. Possui produção agrícola em larga escala, petróleo, minérios, produtos industriais, alimentos, químicos, máquinas e uma série de outros bens que interessam a compradores de diferentes regiões. É pouco estratégico imaginar que essa capacidade de produção deva estar condicionada à relação com um único país.
O desafio, naturalmente, é transformar essa diversidade potencial em uma política comercial permanente. Não basta anunciar negociações ou assinar acordos. É preciso melhorar infraestrutura, reduzir custos, ampliar a competitividade das empresas brasileiras e criar condições para que pequenos e médios exportadores também consigam chegar a mercados estrangeiros. Sem isso, a diversificação corre o risco de ficar restrita aos grandes grupos e às commodities.
Se o tarifaço serviu para alguma coisa, foi para lembrar ao Brasil que existe um mundo inteiro interessado em fazer negócios. Cabe ao país ter competência para chegar até ele.
Também é necessário reconhecer que novos mercados não são conquistados rapidamente. Europa, Ásia, Oriente Médio e América do Norte possuem regras diferentes, exigências sanitárias próprias e interesses econômicos que precisam ser negociados. A expansão comercial brasileira exigirá diplomacia, planejamento e persistência.
Ainda assim, o recorde registrado no primeiro semestre mostra que existe espaço para essa estratégia. Mesmo com a queda das vendas aos Estados Unidos, o Brasil conseguiu ampliar suas exportações e registrar o melhor resultado de sua história para o período. Não é motivo para comemorar dificuldades provocadas pelo tarifaço, mas é uma evidência de que a economia brasileira possui mais opções do que muitas vezes se imagina.
Novo encontro
Na próxima conversa com Washington marcada para esta segunda-feira (31), portanto, o Brasil deveria levar não apenas disposição para negociar, mas também a consciência de que sua relação com os Estados Unidos não precisa ser construída em uma posição de dependência. O país pode querer o mercado americano, pode defender seus interesses e pode trabalhar para reduzir as tarifas sem abrir mão da construção de novas pontes comerciais.
A melhor resposta brasileira ao protecionismo estrangeiro não está em trocar uma dependência por outra. Está em ampliar o número de parceiros até que nenhum deles seja capaz de decidir sozinho o destino das exportações brasileiras.
