Presidente americano promete consequências econômicas para países que derem apoio ao governo iraniano - Foto: Divulgação / Casa Branca
A palavra “tarifaço” tem força para provocar apreensão imediata. Basta que uma nova barreira comercial seja anunciada pelos Estados Unidos para surgir o receio de que produtos de tecnologia fiquem mais caros nas lojas brasileiras. Desta vez, porém, a reação do mercado mostra que o cenário exige menos alarde e mais compreensão sobre como funciona a cadeia global dos eletrônicos.
As novas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump têm como alvo produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos, e não os equipamentos vendidos diretamente ao consumidor brasileiro. Essa diferença, que pode parecer apenas técnica, muda completamente a leitura do impacto econômico.
A inclusão de smartphones, notebooks, computadores, semicondutores e diversos componentes eletrônicos na lista de exceções reduz significativamente o risco de uma alta imediata nos preços desses produtos no Brasil. Isso desmonta uma narrativa que costuma ganhar força sempre que disputas comerciais internacionais entram em evidência: a de que qualquer tarifa anunciada entre grandes economias inevitavelmente chega ao bolso do consumidor brasileiro.
A realidade é mais complexa. O preço de um celular ou de um notebook vendido no país depende muito menos das exportações brasileiras para os Estados Unidos e muito mais da origem de seus componentes, da estratégia das fabricantes e, principalmente, do comportamento do dólar.
É justamente aí que está o ponto mais relevante desse episódio. Enquanto o debate público se concentra nas tarifas, o mercado continua olhando para a cotação da moeda americana. Um câmbio pressionado encarece componentes importados utilizados na montagem nacional, especialmente na Zona Franca de Manaus, e influencia praticamente toda a indústria de tecnologia. Esse efeito costuma ser mais rápido e perceptível do que qualquer mudança provocada por uma disputa comercial específica.
Outro aspecto que merece atenção é a própria reorganização das cadeias globais de produção. Fabricantes como Samsung, Apple, Dell e Lenovo já vêm redistribuindo suas fábricas entre países asiáticos para reduzir riscos geopolíticos e escapar de tarifas em diferentes mercados. Essa movimentação não começou agora e tampouco está relacionada exclusivamente ao Brasil. Trata-se de uma tendência que continuará moldando preços e estratégias comerciais nos próximos anos.
Também não surpreende que semicondutores tenham sido poupados das novas tarifas. Os chips são considerados ativos estratégicos para a própria indústria americana, que ainda depende fortemente da produção concentrada em Taiwan e na Coreia do Sul. Taxar esses componentes significaria elevar os custos da própria economia dos Estados Unidos, algo que dificilmente interessa a Washington.
Sem motivo para corrida às lojas
Para o consumidor brasileiro, portanto, não há motivo para antecipar compras motivadas pelo medo de aumentos imediatos. A experiência mostra que movimentos precipitados costumam beneficiar apenas momentos de especulação, enquanto fabricantes e varejistas ajustam estoques e margens de forma gradual.
O episódio também serve como lembrete de que, em um mercado globalizado, manchetes nem sempre contam toda a história. Tarifas chamam atenção, movimentam governos e alimentam disputas diplomáticas, mas o preço final de uma televisão, de um celular ou de um notebook continua sendo resultado de uma engrenagem muito maior, na qual o câmbio, a produção asiática e a dinâmica internacional dos semicondutores exercem influência muito superior ao impacto direto do chamado tarifaço.
No fim das contas, o consumidor brasileiro faria melhor acompanhando a oscilação do dólar do que se deixando levar pelo peso de um título que, embora impactante, não traduz sozinho a realidade das prateleiras.
