Gênero registra forte crescimento global e contribui para o avanço do português entre os idiomas de maior faturamento no Spotify - Foto: Instagram
Há um dado que merece ser comemorado, mas, principalmente, observado com atenção: a música brasileira está ganhando espaço no mundo. O Brasil aparece atualmente como o 8º maior mercado musical do planeta, segundo o relatório de 2026 da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI). Mais do que uma posição em um ranking, o resultado revela uma transformação na maneira como a produção nacional é consumida, distribuída e monetizada.
O movimento não aconteceu de uma hora para outra. Em 2023, o Brasil ocupava a 10ª posição entre os maiores mercados musicais. Um ano depois, avançou para o 9º lugar. Agora, aparece em 8º, atrás de Estados Unidos, Japão, Reino Unido, China, Alemanha, França e Coreia do Sul. É uma trajetória que demonstra crescimento consistente e coloca o país ao lado de mercados que há décadas exercem enorme influência sobre a indústria fonográfica.
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O streaming tem papel central nessa mudança. No último ano, o mercado musical brasileiro cresceu 14,1%. E há outro indicador que chama atenção: artistas brasileiros representaram 77% das mil músicas mais consumidas no país no ranking da Pro-Música Brasil. Ou seja, o público brasileiro continua consumindo fortemente a própria música, mesmo em uma indústria cada vez mais globalizada.
Esse dado também ajuda a desmontar uma ideia antiga de que o sucesso internacional necessariamente começa quando um artista brasileiro passa a cantar em inglês. A realidade atual parece apontar para o caminho contrário. O português ganhou força entre os idiomas que movimentaram mais de US$ 100 milhões no Spotify em 2025, superando o crescimento registrado por inglês, espanhol e coreano.
E o funk tem participação importante nessa história
O gênero foi o que apresentou maior crescimento global entre aqueles que ultrapassaram US$ 50 milhões em receitas na plataforma, segundo os dados apresentados. O avanço colocou o funk à frente de gêneros como K-Pop, Trap Latino, Urban Latino e Reggaeton nesse recorte.
É um fenômeno que merece ser levado a sério. Durante muito tempo, o funk foi tratado por parte da sociedade brasileira apenas como uma manifestação periférica, frequentemente associada a preconceitos e discussões sobre comportamento. Agora, sua linguagem atravessa fronteiras e ajuda a levar o português para públicos que talvez nunca tivessem contato com a língua por meio da música.
A força da produção nacional também aparece no dinheiro movimentado. Segundo os dados da Pró-Música Brasil, o setor registrou R$ 4 bilhões em faturamento em 2026, mantendo uma sequência de nove anos consecutivos de crescimento. Em 2025, músicas de artistas brasileiros teriam gerado aproximadamente R$ 2 bilhões somente no Spotify, alta de 24% em relação ao ano anterior.
Mas reduzir essa história ao streaming seria um erro.
A música movimenta uma cadeia econômica muito maior. Shows, festivais e eventos culturais também estão em expansão. No primeiro bimestre de 2026, o consumo em atividades ligadas a eventos de cultura e entretenimento chegou a R$ 25,33 bilhões, segundo levantamento da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (ABRAPE), com base em dados oficiais. O valor supera os R$ 23,15 bilhões registrados no mesmo período de 2025 e os R$ 19,62 bilhões de 2019.
O impacto aparece também no mercado de trabalho. O número de empregos formais diretamente ligados ao setor de eventos chegou a 205.538 em 2026, contra 111.401 em 2019. O crescimento de 84,5% supera, proporcionalmente, os avanços registrados na construção, nos serviços e no comércio no mesmo período.
É justamente aí que a discussão fica mais interessante. A música brasileira não é apenas entretenimento. Ela movimenta plataformas digitais, gravadoras, produtores, compositores, profissionais técnicos, casas de shows, festivais, empresas de comunicação, publicidade, turismo e uma extensa cadeia de trabalhadores.
O Brasil, portanto, não deveria olhar para esses números apenas com orgulho. Deveria enxergá-los como uma oportunidade.
O país tem uma das produções musicais mais diversas do mundo. Funk, sertanejo, pagode, samba, MPB, forró, rap, bossa nova e tantos outros gêneros formam um repertório que não precisa abandonar suas características para conquistar outros mercados. Pelo contrário: a identidade parece ser justamente um dos principais ativos da música brasileira.
O desafio da música
Chegar ao 8º maior mercado musical do mundo é uma conquista. Fazer com que artistas brasileiros tenham estruturas profissionais para circular internacionalmente, receber royalties de maneira adequada, conquistar novos públicos e competir em igualdade de condições é uma etapa ainda maior.
A música brasileira já está sendo ouvida. O mundo está prestando atenção. Talvez tenha chegado o momento de o próprio Brasil prestar mais atenção nela.
