Foto: Divulgação / Prime Video
Há uma boa provocação no centro de A Corrida dos Bichos: até onde uma sociedade pode transformar a desigualdade em entretenimento? A produção parte dessa pergunta para construir uma ficção científica que aproxima violência, dinheiro e espetáculo. O mérito está em não esconder sua alegoria. O filme quer falar sobre um país em que sobreviver já é, por si só, uma competição.
O problema é que a produção parece tão interessada nas possibilidades de seu universo que nem sempre sabe onde concentrar a atenção.
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A direção de Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis demonstra segurança quando a narrativa está em movimento. As sequências de corrida são o melhor exemplo. Há energia, escala e uma preocupação evidente em fazer daquele espaço algo mais do que um cenário para perseguições. A arquitetura destruída e a natureza ocupando áreas antes urbanizadas ajudam a criar uma identidade visual própria.
É um dos casos em que a forma consegue dizer algo que o roteiro não precisa explicar. A cidade abandonada, os espaços degradados e a transformação do ambiente em arena comunicam a dimensão daquele colapso com mais eficiência do que longas exposições.
Quando o filme desacelera, porém, a construção perde precisão
O roteiro de Rodrigo Lages, Ernesto Solis e Marco Abujamra apresenta conflitos suficientes para sustentar uma produção muito maior. O espectador é levado a acompanhar diferentes grupos, interesses e trajetórias, mas nem todos recebem desenvolvimento proporcional à importância que parecem ter.
Essa escolha provoca uma consequência curiosa: A Corrida dos Bichos deixa de ser exatamente sobre uma história e passa a funcionar como uma vitrine de histórias possíveis.
A impressão é de que existe material para uma série inteira dentro do longa. Não porque falte conteúdo, mas justamente pelo contrário. Há personagens que despertam curiosidade e conflitos que poderiam ganhar peso, mas são interrompidos antes de atingir o resultado esperado.
Esse excesso também afeta o elenco
Matheus Abreu encontra o equilíbrio necessário para interpretar um protagonista dividido entre seus princípios e a necessidade de proteger quem ama. A atuação funciona porque Mano não é tratado como um herói convencional. Ele reage às circunstâncias antes de controlá-las.
Isis Valverde aproveita a ambiguidade de Nadine e consegue manter a personagem interessante mesmo quando o roteiro não entrega todas as respostas. Rodrigo Santoro, Bruno Gagliasso e Seu Jorge, por sua vez, deixam marcas fortes nas cenas em que aparecem.
O problema não está nos atores, mas no espaço concedido a eles. Alguns nomes importantes acabam subaproveitados, e determinadas participações parecem mais uma promessa do que uma parte efetivamente desenvolvida da história.
A montagem reforça essa sensação
Algumas transições são pouco naturais e determinados acontecimentos parecem chegar ao espectador sem a preparação necessária. Não é o tipo de fragmentação que estimula a interpretação; em certos momentos, ela simplesmente dificulta a compreensão do percurso narrativo.
A participação de Anitta na locução também se encaixa nesse conjunto de escolhas discutíveis. A proposta parece buscar um registro mais leve e irreverente, mas o resultado não se integra completamente ao suspense. Não compromete a produção, mas tampouco acrescenta algo essencial à experiência.

Ainda assim, reduzir A Corrida dos Bichos aos seus problemas seria perder justamente o que existe de mais interessante no projeto.
O cinema brasileiro raramente aposta em ficções científicas dessa escala, e o longa demonstra que há espaço para imaginar futuros distópicos a partir de referências brasileiras, sem simplesmente reproduzir modelos estrangeiros. A crítica social está incorporada à própria mecânica da história, e não apenas colocada como discurso.
O filme também entende que uma produção desse gênero precisa ter personalidade. E ela está presente, sobretudo, na maneira como o Rio de Janeiro é reconstruído e na transformação de uma tradição brasileira em uma engrenagem de entretenimento brutal.
O que falta é contenção
A Corrida dos Bichos não fracassa por falta de ideias. Fracassa parcialmente porque tem ideias suficientes para mais de um filme. Ao tentar apresentar um universo inteiro em uma única corrida, acaba deixando personagens, conflitos e possibilidades pelo caminho.
É uma obra que merece ser reconhecida pela ambição, mas também cobrada por aquilo que não consegue entregar. O potencial está evidente. Resta saber se uma eventual continuação terá coragem de fazer o que o primeiro filme não conseguiu: escolher melhor o que contar.
