Conexão com a Europa pode facilitar turismo, negócios e pagamentos entre brasileiros e europeus - Foto: Banco de imagem / Shutterstock
Há uma espécie de ironia positiva na história recente do sistema financeiro brasileiro: um país acostumado a importar soluções tecnológicas começa, em alguns setores, a exportar ideias. O Pix é talvez o exemplo mais evidente. Criado pelo Banco Central em 2020, o sistema se tornou parte da rotina de milhões de brasileiros e agora pode ganhar uma dimensão internacional com uma possível conexão ao TIPS, plataforma de pagamentos instantâneos do Eurosistema.
As negociações entre o Banco Central do Brasil e o Banco Central Europeu ainda estão em fase preliminar. O próprio BCE confirmou que existe uma investigação sobre a possibilidade de conectar o Pix ao TIPS. O cronograma europeu indica uma etapa de pré-investigação, com análises técnicas, jurídicas, operacionais e de segurança. Se o projeto avançar, um piloto operacional poderá ser lançado em 2028.
E é justamente aí que a discussão fica maior do que o simples ato de pagar uma conta em euros.
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Para o brasileiro que viaja, a mudança pode ser bastante concreta. Em vez de depender exclusivamente de cartão internacional, dinheiro em espécie ou outras soluções de pagamento, o consumidor poderá, em um cenário de integração efetiva, utilizar o aplicativo de seu banco no Brasil para fazer uma compra na Europa. A operação seria convertida para a moeda local e liquidada pelo sistema correspondente.
É importante, porém, não vender a novidade como algo que já existe. O Pix ainda não está integrado ao TIPS. Não há, neste momento, uma autorização para o brasileiro chegar a qualquer estabelecimento europeu e simplesmente pagar com Pix. Segundo a Folha de São Paulo, o que existe é uma negociação em andamento, e ainda há questões técnicas, regulatórias e de segurança a serem resolvidas.
Mesmo assim, a direção escolhida pelo Banco Central merece atenção.
Um sistema que deixou de ser apenas brasileiro
O tamanho alcançado pelo Pix ajuda a explicar por que essa conversa interessa tanto. Em 2025, o sistema movimentou mais de R$ 35 trilhões em quase 80 bilhões de transações. Ao fim daquele ano, 148 milhões de pessoas físicas e 12,8 milhões de empresas haviam realizado ou recebido ao menos uma transação pelo sistema, segundo o Banco Central (BC).
Ainda de acordo com o BC, no segundo semestre de 2025, o Pix respondeu por 54,7% de todas as transações de pagamento realizadas no país, com 42,9 bilhões de operações.

Não é pouca coisa. O Pix não se tornou apenas uma ferramenta conveniente para dividir a conta do restaurante ou pagar o vendedor de uma loja. Ele alterou a infraestrutura do cotidiano econômico brasileiro.
Um estudo publicado pelo próprio Banco Central aponta que o avanço do Pix contribuiu para a digitalização da economia e para a redução do uso de dinheiro em espécie. A pesquisa também encontrou relação entre o aumento das transações via Pix e a queda dos saques em dinheiro.
É esse histórico que torna a possível internacionalização particularmente interessante.
Menos barreiras para quem circula entre Brasil e Europa
Se a integração funcionar como está sendo estudada, brasileiros poderão ganhar uma alternativa mais simples para realizar pagamentos durante viagens à Europa.
Isso pode beneficiar estudantes, turistas, trabalhadores, pequenos empresários e brasileiros que mantêm relações financeiras com pessoas ou empresas europeias.

Para o consumidor, a principal vantagem potencial está na redução de etapas. A promessa do pagamento instantâneo é justamente diminuir intermediários e tornar a transferência mais rápida. Para empresas, a possibilidade de uma infraestrutura de pagamentos transfronteiriços mais direta também pode facilitar determinadas operações comerciais.
Mas existe uma ressalva fundamental: isso não significa que todas as transações internacionais ficarão automaticamente gratuitas ou mais baratas. A conversão entre real e euro, tarifas eventualmente cobradas pelos bancos e instituições envolvidas, regras cambiais e outros custos ainda precisarão ser definidos. É justamente por isso que a fase de estudos é importante.
O ganho econômico não estará simplesmente em “usar Pix na Europa”. Ele estará na criação de uma infraestrutura que possa tornar determinadas operações internacionais mais rápidas, competitivas e menos burocráticas.
E o Brasil pode ganhar com os turistas europeus
Existe ainda o caminho inverso, e ele talvez seja tão interessante quanto. Um turista europeu que estiver no Brasil poderia, em tese, utilizar o aplicativo de sua instituição financeira para pagar um estabelecimento brasileiro por meio da infraestrutura integrada. O comerciante receberia em reais, enquanto o consumidor teria o débito realizado em sua moeda. Para o turismo brasileiro, isso pode representar uma vantagem.
Quanto mais simples for pagar, menor tende a ser uma das barreiras práticas enfrentadas pelo visitante estrangeiro. Restaurantes, hotéis, lojas, serviços turísticos e pequenos negócios poderiam se beneficiar de uma experiência de pagamento mais familiar para o visitante.
Não significa, evidentemente, que uma conexão entre Pix e TIPS provocará sozinha uma explosão do turismo ou das exportações brasileiras. Seria exagero afirmar isso.
Mas facilitar pagamentos é uma forma de reduzir fricção econômica. E reduzir fricção é algo valioso em qualquer mercado.
O verdadeiro triunfo pode estar na tecnologia
Talvez o aspecto mais relevante dessa história não esteja nem no turista brasileiro em Paris nem no europeu tomando um café no Rio. Está no reconhecimento de que o Brasil construiu uma infraestrutura de pagamentos suficientemente relevante para ser considerada em uma conexão com uma das principais estruturas financeiras do mundo.
O TIPS é uma infraestrutura do Eurosistema voltada à liquidação instantânea de pagamentos, funcionando continuamente. A possível conexão com o Pix aparece no próprio planejamento europeu para interligações internacionais.
Isso coloca o Brasil em uma conversa que vai muito além dos cartões. O país passou de consumidor de tecnologia financeira a desenvolvedor de uma infraestrutura que desperta interesse internacional.
E esse talvez seja o ponto que mereça mais orgulho, sem ufanismo.
O Pix não precisa ser tratado como uma invenção perfeita ou como símbolo de superioridade brasileira. Há problemas de fraude, segurança e inclusão digital que continuam exigindo atenção. O próprio Banco Central vem ampliando mecanismos de proteção e segurança.
Também não se pode ignorar que parte da população ainda enfrenta dificuldades de acesso à internet ou desconhece plenamente o funcionamento do sistema. Pesquisa do Banco Central mostrou que 17,3% dos entrevistados não haviam utilizado o Pix nos 12 meses anteriores à pesquisa de 2023.
Portanto, internacionalizar o Pix não deveria significar abandonar os problemas domésticos.
O Brasil deveria aproveitar o momento
A possível conexão com o sistema europeu mostra que inovação financeira não precisa ser sinônimo de uma tecnologia criada no Vale do Silício, em Londres ou em algum grande centro asiático.
O Brasil conseguiu construir uma solução pública de pagamentos que ganhou escala rapidamente e alterou hábitos de consumidores e empresas. Agora aparece a oportunidade de dar outro passo.
Se a integração com o TIPS for tecnicamente segura, juridicamente viável e economicamente vantajosa, não há razão para o Brasil não avançar.
A questão central, entretanto, não deveria ser apenas fazer o Pix funcionar na Europa. O desafio será garantir que essa internacionalização preserve aquilo que fez o sistema ganhar popularidade no Brasil: simplicidade, velocidade, competição e custos relativamente baixos.
Porque atravessar o Atlântico é a parte fácil da história. O verdadeiro teste será provar que o Pix pode funcionar fora do Brasil sem deixar de funcionar bem para os brasileiros dentro dele.
E, nesse sentido, a possível ponte com a Europa pode ser mais do que uma comodidade para quem viaja. Pode ser um sinal de maturidade de uma economia que, aos poucos, começa a exportar não apenas produtos e serviços, mas também infraestrutura digital.
Isso, sim, é uma conquista que pode valer muito mais do que alguns cliques em um QR Code.
