Relatório dos EUA pede ações urgentes contra facções e aponta papel do país no fluxo internacional de cocaína - Foto: Divulgação / Ricardo Stuckert
O governo de Donald Trump aumentou o tom das cobranças ao Brasil no combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas. Em documento divulgado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos nesta quarta-feira (16), o presidente americano afirma que o país não estaria enfrentando de forma suficiente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) e pede que o governo brasileiro adote medidas mais duras com urgência.
O relatório foi encaminhado ao Congresso americano na terça-feira (15) e faz parte do levantamento anual dos Estados Unidos sobre países considerados envolvidos na produção ou no trânsito de drogas. As duas facções brasileiras foram recentemente incluídas pelos EUA em uma lista de organizações classificadas como terroristas.
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Segundo o documento, enquanto outros governos do Hemisfério Ocidental estariam adotando medidas para combater organizações criminosas, o Brasil não estaria fazendo o mesmo em relação ao PCC e ao CV.
A avaliação apresentada pela Casa Branca afirma ainda que as duas facções ajudaram a transformar o Brasil em um importante ponto de passagem da cocaína destinada ao mercado internacional.
O texto classifica PCC e Comando Vermelho como uma ameaça à paz e à segurança em diferentes partes do mundo e defende que o governo brasileiro tome medidas para impedir o crescimento e a expansão dos grupos.
A posição representa uma cobrança direta à política brasileira de segurança e combate ao narcotráfico. Documentos anteriores do próprio governo americano já apontavam o Brasil como uma importante rota internacional para o tráfico de cocaína.
Críticas e acenos na América Latina
O relatório de Trump também apresenta críticas a outros países envolvidos, segundo os Estados Unidos, em rotas de produção ou trânsito de drogas.
A lista inclui Afeganistão, Bahamas, Belize, Bolívia, China, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Jamaica, Laos, México, Mianmar, Nicarágua, Paquistão, Panamá, Peru e Venezuela.
Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia são apontados no documento como países que, no último ano, não teriam cumprido integralmente compromissos previstos em acordos internacionais relacionados ao combate ao narcotráfico.
México e Canadá também aparecem entre os países pressionados por Washington. No caso canadense, os Estados Unidos defendem ações para combater laboratórios clandestinos usados na produção de drogas. Para o México, a cobrança envolve organizações classificadas pelo governo americano como narcoterroristas e que, segundo o relatório, controlam territórios no país.
A China também é citada. Trump afirma que, apesar de ter discutido com o presidente chinês Xi Jinping o combate ao fentanil ilegal que chega aos Estados Unidos, Pequim precisa fazer mais para reduzir o envio de substâncias utilizadas na fabricação da droga.
Ao mesmo tempo em que faz cobranças, o documento aponta mudanças recentes de governo em países sul-americanos como uma oportunidade para ampliar a cooperação com Washington.
Venezuela, Bolívia e Colômbia aparecem nesse contexto. O relatório registra avanços nesses países, mas afirma que novas medidas ainda precisam ser adotadas.
Diplomatas brasileiros veem seletividade
Nos bastidores, diplomatas brasileiros avaliam que o relatório reforça a orientação da política externa de Trump para a América Latina. A avaliação, segundo apuração dos repórteres Ricardo Abreu e Guilherme Balza, da GloboNews, é de que existe seletividade na maneira como a Casa Branca trata os governos da região.
A interpretação de diplomatas brasileiros é baseada no contraste entre as críticas feitas a determinados países e os acenos dirigidos a governos sul-americanos recém-eleitos considerados mais próximos politicamente de Trump.
O relatório, de caráter anual, é encaminhado pelo governo dos Estados Unidos ao Congresso e apresenta uma avaliação da situação do tráfico internacional de drogas e dos esforços de diferentes países para combatê-lo.
No caso brasileiro, a pressão ocorre em um cenário no qual o próprio Departamento de Estado americano já descreveu o PCC como uma organização criminosa transnacional com atuação além das fronteiras do país.
A cobrança de Trump, portanto, coloca PCC e Comando Vermelho no centro da agenda de segurança entre Brasil e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que Washington amplia a pressão sobre governos latino-americanos no combate ao tráfico internacional.
