Disputa presidencial termina com empate técnico nas pesquisas, embates marcados por ataques pessoais e dúvidas sobre as propostas econômicas dos candidatos - Foto: Divulgação / Globo / Manoella Mello
A eleição presidencial deste domingo (25) pode entrar para a história por dois motivos opostos: consolidar a influência política da família Bolsonaro ou garantir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma virada inédita desde a redemocratização. Na reta final da campanha, o senador Flávio Bolsonaro (PL) aparece numericamente à frente nas pesquisas, mas a diferença está dentro da margem de erro, mantendo o resultado em aberto.
Se vencer, Flávio poderá ampliar o poder político da família em um momento decisivo, um ano após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. O grupo familiar passaria a reunir o senador, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, eleitos para o Senado, além de Jair Renan, que conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados.
- Vídeo: eleitora é denunciada por saudação nazista após votar no Rio
- Homem é preso após furtar peça de carne de R$ 200 em supermercado de Copacabana
- Assessores dos EUA fizeram campanha para devolver Bolsonaro ao poder, diz agência
- Eduardo Bolsonaro sugere que Flávio deixe o Brasil se perder eleição: ‘Envie os fuzileiros navais’
- Lula e Flávio Bolsonaro decidem eleição histórica sob clima de polarização
Do outro lado, Lula tenta conquistar seu quarto mandato presidencial. Caso seja reeleito, poderá acumular 16 anos no comando do Palácio do Planalto, aproximando-se do recorde de Getúlio Vargas, que governou o Brasil entre 1930 e 1945 e, novamente, de 1951 a 1954, somando 18 anos no poder.
As pesquisas Quaest e Datafolha divulgadas na véspera da votação apontaram Flávio com 51% dos votos válidos, contra 49% de Lula. O cenário representa empate técnico, considerando a margem de erro dos levantamentos. Se confirmado nas urnas, o placar será semelhante ao de 2022, quando o petista derrotou Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1% dos votos válidos, mas com os números invertidos.
Campanha ganhou força na reta final
Depois de um primeiro turno marcado pelo desinteresse de parte do eleitorado, segundo as pesquisas, a disputa ganhou intensidade nas últimas semanas. Atos políticos de apoiadores da direita e da esquerda reuniram multidões em diferentes regiões do país, com manifestações de Flávio e Lula no sábado, último dia antes da votação, em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.
O debate promovido pela TV Globo também movimentou a campanha e gerou vídeos que circularam amplamente nas redes sociais. Nas três semanas do segundo turno, os candidatos passaram a discutir propostas de governo com mais frequência, embora os escândalos envolvendo o INSS e o Banco Master e os conflitos internos no Supremo Tribunal Federal (STF) tenham ocupado parte importante do debate público.
Apesar da mudança de foco, os dois presidenciáveis terminaram a campanha sem esclarecer completamente pontos importantes de seus programas, sobretudo na economia. Flávio prometeu um ajuste de R$ 200 bilhões no Orçamento, mas não detalhou quais despesas seriam cortadas nem apresentou medidas suficientes para ampliar a arrecadação. Ao mesmo tempo, afirmou que não pretende aumentar impostos.
Lula, por sua vez, apresentou medidas com impacto fiscal estimado em R$ 300 bilhões. O presidente, no entanto, não explicou de forma detalhada como pretende conciliar os novos gastos com a redução da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), indicador que ultrapassou 81%, maior patamar desde a pandemia de Covid-19. Durante a campanha, o petista também minimizou a necessidade de um ajuste fiscal, apesar do crescimento do endividamento.
Candidatos mudaram de posição
Na tentativa de conquistar votos, os dois lados também precisaram rever posições defendidas anteriormente. Flávio declarou apoio ao fim da escala de trabalho 6×1 durante a tramitação da proposta no Senado, apesar das críticas que parlamentares do PL fizeram à medida ao longo dos últimos anos.
Lula, por sua vez, passou a admitir a redução da maioridade penal para crimes hediondos em meio às discussões sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública no Congresso Nacional. As mudanças evidenciaram a pressão eleitoral sobre temas que mobilizam diferentes setores da sociedade.
Nos debates televisivos, porém, a troca de acusações acabou ganhando espaço em relação à apresentação de soluções concretas. Depois de evitarem confrontos com os candidatos Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) durante o primeiro turno, Flávio e Lula protagonizaram embates marcados por ofensas pessoais na Band e na Globo, com acusações de “miliciano” e “ladrão”.
Próximo governo terá desafios no Congresso
O clima de confronto deve continuar depois da apuração, independentemente do vencedor. Caso Flávio seja eleito, terá entre os principais desafios políticos a tentativa de tirar o pai da prisão, a defesa de anistia para os condenados pelos atos de 8 de Janeiro e a articulação pelo impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Se Lula conquistar um novo mandato, precisará negociar com um Congresso Nacional de perfil hostil ao governo. O PL deverá ter a maior bancada tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado, o que pode dificultar a aprovação das propostas apresentadas pelo presidente durante a campanha.
Com os dois candidatos chegando à votação em situação de equilíbrio nas pesquisas, o resultado definirá não apenas quem comandará o país pelos próximos quatro anos, mas também o tamanho da influência de seus grupos políticos e as condições de governabilidade em um cenário de forte polarização.
