Segundo a Reuters, funcionários americanos defenderam sanções e medidas contra o Brasil para beneficiar a família do ex-presidente Jair Bolsonaro - Foto: Instagram / Eduardo Bolsonaro
Dois assessores do Departamento de Estado dos Estados Unidos lideraram iniciativas para favorecer a família Bolsonaro na política brasileira e defenderam medidas de pressão contra o governo Luiz Inácio Lula da Silva, segundo reportagem da agência Reuters baseada em relatos de 10 funcionários e ex-funcionários americanos com conhecimento direto dos fatos. As ações incluíram sanções contra um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e propostas para classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Os envolvidos são Darren Beattie, assessor sênior responsável por assuntos do Hemisfério Ocidental, incluindo a política para o Brasil, e Ricardo Pita, que ocupou outro cargo de assessor sênior antes de ser promovido, em 2026, a vice-secretário adjunto para a América do Norte. Segundo as fontes ouvidas, os dois atuaram com ampla autonomia na condução da relação de Washington com o Brasil.
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A reportagem afirma que, nos meses anteriores ao início da campanha eleitoral, Beattie e Pita orientaram diplomatas americanos no país a tratar a volta do ex-presidente Jair Bolsonaro ao poder como um objetivo da política externa dos Estados Unidos. Bolsonaro, porém, estava inelegível após ser condenado por sua participação em uma trama golpista relacionada à derrota para Lula nas eleições de 2022.
Após a condenação de Bolsonaro, em setembro de 2025, a atuação dos assessores teria passado a favorecer seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, candidato da direita à Presidência. De acordo com três fontes ouvidas pela agência, os funcionários americanos também orientaram integrantes da embaixada a evitar contatos com outros candidatos conservadores que pudessem disputar espaço com Flávio.
Sanções contra Alexandre de Moraes
Uma das principais iniciativas atribuídas a Beattie e Pita foi a defesa de sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, responsável por investigações envolvendo Jair Bolsonaro. Em julho de 2025, o governo americano anunciou medidas contra o magistrado com base na Lei Global Magnitsky, legislação que permite punir estrangeiros acusados de violações graves de direitos humanos ou corrupção.
Washington justificou a decisão com acusações de violações à liberdade de expressão, relacionadas, entre outros pontos, à remoção de publicações nas redes sociais. Moraes, por sua vez, afirmou que as medidas judiciais buscavam combater a disseminação de informações falsas que ameaçavam as instituições democráticas brasileiras.
Segundo um ex-funcionário americano com conhecimento direto do caso, Beattie fez contatos com o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), órgão do Departamento do Tesouro responsável pela administração de sanções, para defender a inclusão de Moraes na lista de punidos. O então secretário do Tesouro, Scott Bessent, não teria se oposto à iniciativa, de acordo com a fonte.
A mobilização ocorreu após integrantes da família Bolsonaro intensificarem a pressão em Washington. No início de 2025, Eduardo Bolsonaro, deputado federal à época, defendia publicamente a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro. Em abril daquele ano, ele teria visitado Beattie no Departamento de Estado, segundo dois ex-funcionários americanos.
A reportagem também relaciona a atuação dos assessores à política de defesa da liberdade de expressão promovida por aliados do presidente Donald Trump. Beattie, ex-redator de discursos da Casa Branca, foi demitido em 2018 após participar de um evento frequentado por nacionalistas brancos. Posteriormente, tornou-se um dos defensores de medidas contra países acusados de restringir manifestações políticas de direita.
Em dezembro, os Estados Unidos retiraram Moraes da lista de sanções, sem apresentar uma explicação oficial para a decisão, segundo a Reuters.
Pressão para classificar facções como terroristas
Outra frente de atuação envolveu a tentativa de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A família Bolsonaro defendia a medida sob o argumento de que ela poderia ampliar a pressão contra grupos criminosos e atingir politicamente Lula, criticado por adversários na área da segurança pública.
Eduardo Bolsonaro e Pita aproximaram-se por meio de círculos conservadores americanos e apoiaram a iniciativa, segundo a reportagem. Em maio de 2025, Pita integrou uma delegação dos Estados Unidos que visitou Jair Bolsonaro em Brasília, onde o ex-presidente aguardava o julgamento relacionado à trama golpista.
Após retornar a Washington, Pita pediu a funcionários responsáveis por sanções que avaliassem a possibilidade de aplicar ao Brasil mecanismos semelhantes aos utilizados contra cartéis mexicanos, classificados como organizações terroristas pelo governo Trump em fevereiro de 2025, de acordo com um ex-funcionário americano.
Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro se reuniu em Washington com Beattie e Christopher Landau, vice-secretário de Estado, para discutir a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A reunião foi divulgada pelo influenciador conservador Paulo Figueiredo, que publicou imagens dos participantes na rede social X.
No dia seguinte, o Departamento de Estado anunciou a designação das facções. A Reuters, porém, não conseguiu determinar em que medida a atuação de Beattie e Pita influenciou a decisão final.
Tarifas e tensão diplomática
As iniciativas ocorreram em meio a uma série de medidas adotadas por Washington contra o Brasil em julho de 2025. Na ocasião, o governo Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e a revogação de vistos de oito ministros do STF, citando a suposta perseguição a Jair Bolsonaro.
A agência não conseguiu estabelecer se Beattie ou Pita tiveram participação direta nessas decisões. Analistas políticos brasileiros ouvidos pela Reuters afirmaram, contudo, que parte das medidas produziu efeitos contrários aos pretendidos por seus defensores.
As tarifas contribuíram para elevar os índices de aprovação de Lula, segundo os analistas, enquanto as sanções contra integrantes do Judiciário não impediram o andamento do processo contra Bolsonaro. Empresas americanas e brasileiras também criticaram as barreiras comerciais. Entre elas estava a JBS, controlada pelos empresários Wesley e Joesley Batista. Posteriormente, Washington reduziu parte das tarifas.
Em março de 2026, o Brasil impediu a entrada de Beattie no país para uma visita a Jair Bolsonaro na prisão, de acordo com a reportagem. A decisão representou outro revés para o assessor, cuja atuação passou a ser associada à tentativa de ampliar a influência americana sobre a política brasileira.
Orna Blum, ex-chefe do escritório do Departamento de Estado para o Brasil e o Cone Sul, afirmou à Reuters que os Estados Unidos podem defender seus interesses econômicos e estratégicos, mas não devem usar instrumentos diplomáticos para interferir no destino judicial de aliados políticos em outros países.
A Casa Branca não comentou as acusações e encaminhou as perguntas ao Departamento de Estado. O porta-voz da pasta, Tommy Pigott, não respondeu a questionamentos específicos sobre as orientações atribuídas aos assessores. Em comunicado, afirmou que as ações americanas contra narcotraficantes e em defesa da liberdade de expressão buscam proteger os cidadãos dos Estados Unidos e ressaltou que os brasileiros têm o direito de escolher seus representantes em eleições livres e justas.
O gabinete de Lula e Alexandre de Moraes não responderam aos pedidos de comentário. Eduardo Bolsonaro também não se manifestou à agência.
Trump elogia desempenho de Flávio Bolsonaro

A atuação dos assessores ocorre em um cenário de disputa eleitoral entre Flávio Bolsonaro e Lula. O presidente brasileiro já havia alertado Washington contra uma interferência na soberania nacional e acusado o adversário de conspirar com o governo Trump.
O presidente americano, por sua vez, não declarou publicamente apoio formal a um dos candidatos. Segundo Mario Braga, analista latino-americano da consultoria de inteligência de risco RANE, Trump pode ter evitado um endosso explícito a Flávio para não alimentar a percepção de interferência estrangeira, o que poderia beneficiar Lula.
Apesar da ausência de apoio público formal, Trump elogiou o desempenho do senador após o primeiro turno, realizado no início de outubro de 2026, quando Flávio superou Lula por uma margem estreita, segundo o relato da Reuters.
“Perto, mas uma vitória muito, muito grande”, afirmou Trump a jornalistas. “Incrível, na verdade.”
O segundo turno, que acontece neste domingo (25), coloca em disputa não apenas dois projetos políticos para o Brasil, mas também os efeitos da relação entre o governo americano e o grupo político liderado pela família Bolsonaro.
