Presidente reeleito com 51,8% dos votos defende regulação das redes sociais, promete investimentos e manda recado aos Estados Unidos - Foto: Reprodução
Em seu primeiro pronunciamento após derrotar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou um discurso de conciliação, mas não deixou de alfinetar adversários. Reeleito para o quarto mandato na Presidência da República, com 51,8% dos votos válidos contra 48,2% do senador, o petista prometeu governar para toda a população, defendeu a regulação das plataformas digitais e sinalizou mudanças na política de segurança pública.
“Não tenho mais adversários. Tenho que governar para 215 milhões”, declarou Lula, ao comentar o resultado da disputa, marcada pela polarização política e por uma diferença apertada entre os candidatos.
- Flávio diz que pedirá anulação das eleições que reelegeu Lula
- Lula comemora vitória, alfineta Bolsonaro e projeta novo governo
- Líderes latino-americanos comemoram reeleição de Lula no Brasil
- Lula vence segundo turno e é reeleito presidente do Brasil
- Vorcaro vota na Papuda durante o segundo turno das eleições
O presidente começou a fala agradecendo aos brasileiros, aos partidos aliados e às equipes responsáveis pela campanha. Ele também destacou a participação dos jovens e dos idosos na votação. Segundo Lula, o pleito registrou o menor número de abstenções da história do país e a menor quantidade de votos nulos.
Petista critica redes sociais e provoca adversário
Apesar da tentativa de transmitir uma mensagem de união, Lula voltou a atacar o campo político adversário. Sem citar diretamente o nome de Flávio Bolsonaro, classificou a eleição como uma derrota do negacionismo e da mentira, além de associar o oponente ao milicianismo.
O petista também criticou empresas de tecnologia estrangeiras e afirmou que pretende avançar na regulamentação das redes sociais. Para ele, as plataformas não podem ficar livres de responsabilização por crimes cometidos no ambiente digital.
“Tivemos que vencer a intromissão de fora para dentro, através de plataformas digitais que nós vamos ter que regular”, afirmou.
Lula ainda questionou o faturamento dessas companhias e a falta de pagamento de impostos no Brasil, além de acusá-las de tentar influenciar o resultado eleitoral.
O presidente também mandou um recado ao governo de Donald Trump, que esperava a vitória de Flávio Bolsonaro. Ao citar o compositor Chico Buarque, defendeu que o Brasil mantenha uma postura de igualdade no relacionamento com outros países, sem demonstrar submissão aos Estados Unidos.
Economia, inteligência artificial e meio ambiente
Para os próximos quatro anos, Lula prometeu priorizar o desenvolvimento econômico e ampliar os investimentos em áreas consideradas estratégicas. Entre elas estão as economias digital, verde e criativa, além do Sistema Único de Saúde (SUS).
O presidente afirmou que pretende estimular o potencial de inovação brasileiro para reduzir a dependência do país em relação às grandes potências. Também defendeu a criação de uma inteligência artificial desenvolvida no Brasil e a reserva de capacidade de data centers para atender ao mercado nacional.
Na área ambiental, Lula destacou a redução do desmatamento pelo quarto ano consecutivo e prometeu ampliar o protagonismo brasileiro nas discussões internacionais sobre mudanças climáticas e paz.
O petista também citou a necessidade de garantir mais proteção aos idosos e respeito às mulheres.
Segurança pública entra na agenda do governo
A segurança pública foi outro tema abordado no pronunciamento. Lula reconheceu que a Constituição de 1988 não atribuiu à União a responsabilidade direta pela maior parte das ações de segurança ostensiva, mas afirmou que pretende mudar esse cenário por meio da PEC da Segurança Pública.
Segundo ele, os estados não conseguem enfrentar sozinhos os problemas da área. O presidente prometeu medidas de proteção para a população e defendeu punições para criminosos.
“Para o trabalhador, proteção e para o bandido, prisão”, declarou.
Ao falar sobre a relação com o Congresso Nacional, Lula também rebateu as avaliações de que poderá enfrentar dificuldades para governar. Ele afirmou que respeitará a composição escolhida pelos eleitores e trabalhará com os parlamentares, sem exigir que todos concordem com sua gestão.
Alckmin é lembrado como responsável pela vitória
Durante o evento, Lula fez questão de dividir os méritos da vitória com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Antes de iniciar seu discurso, passou a palavra ao aliado e afirmou que ele teve participação importante no resultado eleitoral.
Alckmin, por sua vez, cumprimentou jovens, mulheres e idosos e declarou que Lula salvou a democracia brasileira.
A comemoração ocorreu no hotel InterContinental, no Jardim Paulista, em São Paulo, onde o presidente acompanhou a apuração ao lado de integrantes da campanha e aliados políticos. O local foi utilizado como quartel-general em outras vitórias eleitorais do petista, em 2002, 2006 e 2022.
Lula chegou ao hotel por volta das 19h50 e permaneceu em uma sala com a primeira-dama Janja, Alckmin, o ex-ministro Camilo Santana e o presidente do PT, Edinho Silva. Também acompanharam a apuração ministros, ex-ministros, parlamentares e outras lideranças.
Quando o Datafolha projetou a vitória do petista, por volta das 20h50, gritos de comemoração tomaram conta do local. Lula celebrou com abraços, beijos e danças, além de posar para fotografias usando óculos vermelhos em formato de estrela.
Antes do pronunciamento, houve confusão na entrada do auditório, com seguranças tentando controlar o acesso de apoiadores e aliados. O deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pelo canal de WhatsApp Exército do Lula, também precisou abrir caminho em meio à movimentação.
A plataforma, que acumulou mais de 10 milhões de inscritos, foi uma das ferramentas utilizadas pela campanha petista na disputa digital do segundo turno. Antes de discursar, Lula participou de uma transmissão ao vivo no Instagram de Janones. Vídeos dos bastidores da comemoração também foram divulgados no canal.
Aliados descartam facilidade para tentativa de golpe
Após a confirmação do resultado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi questionado sobre a possibilidade de uma tentativa de ruptura institucional. Ele afirmou que a sociedade e a imprensa estão mais preparadas para impedir uma eventual ofensiva contra a democracia.
Já o deputado federal Paulo Teixeira atribuiu a vitória à mobilização dos jovens, à atuação nas redes sociais e às denúncias contra Flávio Bolsonaro. Segundo ele, a extrema-direita foi derrotada por uma diferença de aproximadamente cinco milhões de votos.
A senadora eleita Marília Arraes (PDT-PE) destacou o desempenho do Nordeste e afirmou que a região tem potencial para ocupar uma posição central no desenvolvimento brasileiro.
Campanha teve tensão antes da votação
Mais cedo, Lula votou acompanhado de Janja, Alckmin, Fernando Haddad, Simone Tebet e Marina Silva. Durante a tarde, o petista criticou denúncias sobre a redução da frota de ônibus em cidades como São Paulo e Salvador e afirmou que não aceitaria irregularidades que pudessem comprometer o direito ao voto.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro foi uma das mais apertadas das últimas duas décadas. Na véspera, levantamentos dos institutos Quaest e Datafolha indicavam empate técnico, com o senador à frente por 51% a 49% dos votos válidos.
O resultado final, porém, confirmou a virada do petista, que terminou o segundo turno com 51,8% dos votos válidos, contra 48,2% do adversário.
Na reta final do discurso, Lula ainda encontrou espaço para brincar com o futebol e provocar o Corinthians, seu clube de coração. Ao comparar a situação da equipe à família Bolsonaro, disparou: “O Corinthians parece o Bolsonaro. Só perde”.
Depois da fala, o presidente convocou os apoiadores a celebrar a vitória na Avenida Paulista.
