Márcio Canella foi preso na Operação Unha e Carne - Foto: Divulgação / Alerj
A Prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, pagou R$ 28,9 milhões a cinco empresas mencionadas em uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao crime organizado. Os contratos foram firmados durante a gestão do ex-prefeito Márcio Canella (União Brasil), que foi preso em outubro deste ano na oitava fase da Operação Unha e Carne.
Os pagamentos foram realizados a partir de 2025 e envolvem empresas que prestaram diferentes serviços ao município, como fornecimento de material escolar, transporte de estudantes, obras públicas e serviços de reboque. Os dados foram obtidos a partir de informações da própria administração municipal, disponíveis no Portal da Transparência e em publicações do Diário Oficial.
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De acordo com o levantamento, R$ 25,1 milhões foram pagos até 3 de abril deste ano, quando Canella deixou a prefeitura para disputar as eleições. A administração passou a ser comandada pela então vice-prefeita Mariana Malta (União Brasil), que adotou o nome político de Mariana Canella.
A maior parte dos recursos foi destinada a duas empresas ligadas a Márcio Samary Machado, conhecido como Márcio Nit, apontado pelos investigadores como um dos operadores financeiros do esquema. Juntas, a ECO 805 Comércio e Serviços e a Elite Turística receberam R$ 18,09 milhões dos cofres municipais.
Os valores repassados às cinco empresas foram distribuídos da seguinte forma:
- ECO 805 Comércio e Serviços: R$ 10,44 milhões;
- Elite Turística: R$ 7,65 milhões;
- FAB Mix Concretos: R$ 7,16 milhões;
- D A G G Tavares Projetos: R$ 2,31 milhões;
- Opção Ativa: R$ 1,34 milhão.
No relatório que embasou a operação, a PF descreveu Canella como um possível “patrono político” e “articulador de alto escalão” da organização criminosa. Segundo os investigadores, o ex-prefeito seria responsável por fazer a ligação entre integrantes do grupo e o poder público, utilizando uma rede de postos de combustíveis para movimentar recursos.
Empresas aparecem em investigação
Márcio Nit é sócio da ECO 805, responsável pelo fornecimento de kits de materiais escolares à prefeitura, e da Elite Turística, que administra a frota de transporte escolar municipal. O Supremo Tribunal Federal (STF) o identificou como “operador e intermediário financeiro da organização criminosa”, com participação em pagamentos e movimentações de dinheiro entre pessoas e empresas ligadas ao grupo investigado.
Ele mantém ligação com o inspetor da Polícia Civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. O policial é apontado pela PF como integrante do núcleo operacional central do esquema e seria responsável pela administração de uma rede com mais de 20 postos de combustíveis. Ele também foi preso na oitava fase da operação.
Um dos episódios identificados pelos investigadores envolve um boleto de R$ 748.689,86. Em 30 de março de 2026, Pablo encaminhou o documento a Márcio Nit, que enviou o comprovante de pagamento no dia seguinte. A dívida foi quitada por uma empresa que tem o cunhado de Nit como sócio. A PF, porém, não detalhou a motivação da negociação.
Outro registro citado no inquérito ocorreu em 11 de maio. Na ocasião, Pablo recebeu o comprovante de um pagamento feito pela Elite Turística à FAB Mix Concretos, empresa contratada pela prefeitura para construir uma escola. Para a investigação, a movimentação indica que o policial atuaria como “operador de fluxos financeiros entre empresas do grupo”.
A D A G G Tavares Projetos também aparece na apuração. A empresa pertence a Dimitri Alecrim Gomes Gaudard Tavares, suspeito de ocultar e dissimular recursos provenientes de atividades criminosas. Em Belford Roxo, a companhia foi contratada para executar a reforma da Vila Olímpica.
Segundo a PF, Pablo Russo tinha acesso a credenciais do CNPJ da empresa e a informações sobre pagamentos de contratos e licitações públicas. Para os investigadores, a situação sugere a possibilidade de uso de dados privilegiados para favorecer a companhia em contratações públicas.
Já a Opção Ativa, que presta serviços de reboque, entrou no radar da polícia por também ter sido contratada pelo Detran, então presidido por Marcus Amim, por meio de dispensa de licitação. Um dos sócios da empresa é Felipe Correa da Cruz, irmão de Hugo Correa da Cruz, conhecido como Hugo Canelão (União Brasil), suplente de vereador em São Gonçalo.
Operação também prendeu ex-secretário
A prisão de Canella ocorreu em 15 de outubro, após o primeiro turno das eleições, quando ele havia conquistado o posto de segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro. A oitava fase da Operação Unha e Carne também levou à prisão de outros cinco suspeitos, entre eles o ex-secretário de Polícia Civil Marcus Amim.
A investigação é um desdobramento da ADPF das Favelas, ação em tramitação no Supremo Tribunal Federal que trata de operações policiais nas comunidades do Rio.
Contrato com posto ligado ao ex-prefeito
Além dos R$ 28,9 milhões destinados às cinco empresas, a prefeitura também firmou, durante a gestão de Canella, um contrato de R$ 2,8 milhões com o posto de combustíveis São Sebastião, citado pela PF na investigação sobre lavagem de dinheiro.
O estabelecimento fica a poucos metros da Câmara Municipal de Belford Roxo e chamou a atenção dos investigadores pela “expressiva movimentação em espécie”. Apesar de aparecer no inquérito, o posto não esteve entre os 96 alvos da oitava fase da Operação Unha e Carne.
Um dos proprietários do estabelecimento é Bruno Viana de Souza, que também aparece como sócio de Canella na empresa Brumar Empreendimentos.
Trajetória política
Canella venceu a disputa pela Prefeitura de Belford Roxo em 2024, com 62,88% dos votos, e assumiu o cargo em janeiro de 2025. Antes disso, já havia sido o deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro nas eleições de 2022.
Em abril deste ano, renunciou ao comando do município após ser escolhido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) para disputar uma vaga no Senado Federal, em uma chapa encabeçada por Douglas Ruas (PL).
A candidatura, no entanto, ficou inviável depois que Canella foi preso em flagrante, em julho, após a apreensão de um fuzil em seu carro. Com isso, ele voltou a tentar uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). O ex-prefeito foi solto poucos dias depois, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Após a prisão mais recente, o Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que rejeite o registro de candidatura de Canella. Para o órgão, o político teria ligação com “conhecidas lideranças milicianas”.
Procurada, a Prefeitura de Belford Roxo, atualmente administrada por Mariana Canella, não respondeu aos questionamentos. A defesa de Márcio Canella não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
