Artista indígena estreia em obras de grande escala com pintura inspirada na lama de Mariana - Foto: Divulgação / Visão de Cria
A paisagem do centro de Belo Horizonte ganhou uma nova representação do Rio Doce pelas mãos de Ailton Krenak. Em sua primeira pintura em grande escala, o escritor e pensador indígena ocupa uma parede lateral de 555 m² do Edifício Pignataro, no entorno da Praça Raul Soares, com a imagem de um rio que busca passagem em meio a lama, pedras e escombros. A obra integra a edição 2026 do Circuito Urbano de Arte (CURA) e foi concluída nesta sexta-feira (28).
A pintura tem como ponto de partida a situação do Rio Doce depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015. Sobre a representação do curso d’água aparece um verso da canção “Vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brant: “um rio passava seus peixes no fundo do meu quintal”.
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Para Krenak, a imagem está ligada à memória do desastre que atingiu a Bacia do Rio Doce. O escritor afirma que a cena permaneceu em sua memória desde que a lama da mineração avançou sobre a região.
“É uma imagem que ficou pregada nas minhas retinas desde que a lama de Mariana devastou a Bacia do Rio Doce, esse rio, nosso avô, o Watu”, afirma.
Na cosmologia do povo Krenak, o Rio Doce é considerado uma entidade e recebe o nome de Watu. A relação do povo com o rio também está no centro da obra. Segundo Krenak, a pintura procura mostrar um curso d’água que, apesar da degradação provocada pela mineração, continua tentando encontrar um caminho.
“Ele está em coma sob a lama da mineração. Correm fios d’água entre lamas e pedras, e ele tem uma dignidade que me animou a fazer esse desenho, essa imagem de um rio tentando abrir caminho entre escombros”, diz.
A execução da pintura começou em 19 de agosto. Embora a concepção seja de Krenak, a aplicação na empena foi realizada por uma equipe formada por Anne, Dream, Vicky, Nati e Anata. Durante uma visita ao Edifício Pignataro nesta sexta, o escritor acompanhou o trabalho realizado no alto do prédio e fez questão de destacar os profissionais envolvidos na execução.
“As pessoas que estão fazendo isso, para mim, é que são gigantes”, afirmou.
Verso de Milton Nascimento

A presença da música “Vida” na obra também estabelece uma conexão entre a memória do Rio Doce e a produção cultural mineira. Krenak escolheu um trecho escrito por Fernando Brant e musicado por Milton Nascimento para acompanhar a imagem do rio.
“Todo mundo conhece essa canção maravilhosa dos dois, do Fernando Brant e do Bituca. Fico muito feliz de puxar eles para a minha companhia”, declarou.
Nascido em 1953, em Itabirinha, no Vale do Rio Doce, Krenak atua como jornalista, escritor e filósofo. Ele participou do processo de inclusão dos direitos dos povos indígenas na Constituição de 1988 e se consolidou como uma das principais vozes brasileiras na defesa dos povos originários e da justiça socioambiental.
Em 2023, tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Entre seus livros estão “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo” e “A Vida Não É Útil”. Este último está entre as obras que servem de referência para o tema da
edição deste ano do CURA: “Descansar Enquanto”.
A participação de Krenak não é a única intervenção artística em grande escala desta edição do CURA. A artista Mônica Nador, um dos principais nomes da pintura mural no Brasil e fundadora do Jardim Miriam Arte Clube (JAMAC), assina a segunda parede da edição.
A obra de Nador está localizada no Edifício Florença, também dentro do circuito de intervenções urbanas promovido pelo CURA em Belo Horizonte.
