Cena de homem negro conduzido por corrente em manifestação no Rio evoca a escravidão e expõe os limites da polarização - Foto: Reprodução
Até que ponto o brasileiro está disposto a aceitar o absurdo em nome da política? Até quando a rivalidade eleitoral servirá de justificativa para cenas que afrontam a dignidade humana e despertam lembranças de um dos períodos mais cruéis da história do país? Um homem negro conduzido por uma corrente por um homem branco, em plena manifestação política, é uma imagem que causa indignação e não pode ser tratada como uma simples provocação. Há limites que não deveriam ser ultrapassados, e muito menos normalizados.
A cena foi registrada neste sábado (24), durante um ato de apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. No vídeo feito pelo jornalista Raphaël Bernard e publicado pela revista Fórum, um homem negro aparece com adesivos e inscrições relacionados ao Partido dos Trabalhadores (PT), segurando um tridente. Atrás dele, um manifestante branco segura uma corrente e grita ofensas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Outro registro, feito pelo repórter Luís Adorno, do UOL, mostra o homem negro usando uma máscara.
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É impossível observar essa imagem sem pensar na história brasileira. Durante séculos, pessoas negras foram acorrentadas, comercializadas, castigadas e privadas de sua liberdade. A corrente foi um instrumento concreto de submissão e violência, parte de um sistema que tratava seres humanos como propriedade. Por isso, ver uma pessoa negra sendo conduzida dessa maneira por uma pessoa branca não é algo banal. A associação com o passado escravocrata é inevitável, e o desconforto provocado pela cena não pode ser descartado como exagero.
O Brasil aboliu oficialmente a escravidão em 1888, mas não apagou as consequências de séculos de violência racial. O racismo continua sendo uma realidade, e a memória desse período não pode ser tratada como um detalhe inconveniente sempre que uma imagem semelhante aparece. É justamente nesse contexto que a cena se torna tão perturbadora: ela evoca uma relação histórica de poder, submissão e desumanização que deveria ser reconhecida com seriedade, jamais convertida em motivo de deboche ou provocação.

E a pergunta que fica é ainda mais incômoda: até que ponto a polarização política está levando parte da sociedade a relativizar situações que, em qualquer outro contexto, provocariam repulsa imediata? A disputa por votos pode ser acirrada, os ataques entre adversários podem ser frequentes e as manifestações podem expressar indignação. Nada disso, porém, deveria tornar aceitável uma representação que remete à submissão racial. A política não pode funcionar como salvo-conduto para qualquer comportamento, nem a rivalidade partidária pode se sobrepor à dignidade humana.
Também é preciso reconhecer o que ainda não se sabe. As imagens não permitem afirmar se o homem negro é realmente simpatizante do PT, apesar dos adesivos e das inscrições em seu corpo. Tampouco esclarecem por que ele se submeteu àquela situação, se houve um acordo entre os envolvidos ou qual era a intenção por trás da cena. Esses pontos precisam ser apurados antes que se atribuam motivações ou responsabilidades específicas. Mas nenhuma dessas dúvidas impede o questionamento sobre o simbolismo da imagem e o impacto que ela provoca em uma sociedade marcada pela escravidão.
Não é necessário presumir que os participantes pretendiam reproduzir uma cena escravocrata para compreender a gravidade dessa associação. O problema está também na escolha de uma representação que remete a uma história de violência e desigualdade. Em um país que ainda luta contra o racismo, a imagem de um homem negro conduzido por uma corrente por um homem branco não pode ser reduzida a um adereço, a uma fantasia ou a mais uma excentricidade de campanha. O peso histórico desse símbolo exige responsabilidade.
Segundo o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) analisa as imagens para definir quais medidas poderão ser adotadas. A Polícia Civil também informou que não houve registro com aquelas características. As circunstâncias precisam ser esclarecidas, e eventuais responsabilidades devem ser apuradas pelas autoridades competentes, sem conclusões precipitadas.
O episódio ocorreu na véspera do segundo turno das eleições presidenciais, que acontece neste domingo (25), e durante o encerramento da campanha de Flávio Bolsonaro no Rio. A mobilização reuniu apoiadores na orla da Barra da Tijuca e na Praça do Ó. O senador esteve acompanhado de aliados, entre eles o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador eleito do Rio, Douglas Ruas (PL). A participação dessas lideranças no evento, contudo, não permite atribuir a elas responsabilidade pela cena registrada.
O que não pode acontecer é o episódio desaparecer na enxurrada de notícias eleitorais, como se fosse apenas mais uma imagem polêmica de uma campanha marcada pela polarização. A sociedade precisa ser capaz de olhar para o que aconteceu, questionar o significado da cena e cobrar esclarecimentos. O fato de uma imagem provocar indignação não significa que todas as circunstâncias estejam esclarecidas; significa que há razões suficientes para não tratá-la com indiferença.
Até que ponto o brasileiro vai permitir que a política se transforme em justificativa para ultrapassar limites básicos de respeito? Até que ponto a necessidade de provocar o adversário será colocada acima da consciência histórica e da dignidade de uma pessoa? Essas perguntas não pertencem a um partido, a um candidato ou a um lado da disputa. São questões que dizem respeito à sociedade como um todo.
A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que a divergência seja possível sem que a dignidade humana seja colocada em segundo plano. A liberdade de manifestação é um direito fundamental, mas também precisa conviver com a responsabilidade pelas próprias ações e com o debate público sobre seus significados.
A corrente vista nas imagens não pode ser tratada como um detalhe sem importância. Ela carrega uma memória dolorosa e remete a uma violência que o Brasil ainda precisa enfrentar em suas consequências. Independentemente do que a investigação revelar sobre as intenções dos envolvidos, a cena merece ser repudiada como representação profundamente perturbadora. O país não precisa esperar o resultado de uma eleição para saber que a dignidade humana não é moeda de troca política. Se a sociedade começar a aceitar o absurdo apenas porque ele acontece no campo de seus adversários (ou de seus aliados), o problema já terá ultrapassado qualquer disputa partidária.
