Entidade europeia prepara denúncia criminal na Suíça contra presidente da Fifa por plano abandonado de criação de empresa para explorar direitos comerciais de competições - Foto: Instagram
A crise entre a Uefa e Gianni Infantino ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira. A entidade que comanda o futebol europeu pediu a um tribunal federal dos Estados Unidos autorização para obter documentos e depoimentos de empresas ligadas à Fifa na Flórida. O material deverá ser usado em uma possível ação criminal na Suíça contra o presidente da entidade máxima do futebol e outros dirigentes e assessores.
O pedido judicial está relacionado ao projeto Fifa Forward Enterprise (FFE), que previa concentrar em uma nova subsidiária direitos comerciais ligados às Copas do Mundo masculina e feminina e ao Mundial de Clubes. A proposta foi abandonada pela Fifa em 31 de julho, após forte reação de dirigentes e associações nacionais.
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Segundo a Uefa, Infantino e um grupo restrito de assessores e investidores trabalharam no projeto durante mais de um ano sem consultar o Conselho da Fifa, as confederações continentais ou as 211 associações filiadas à entidade.
A Uefa afirma que os estatutos da Fifa dão ao Conselho a autoridade para decidir como os direitos comerciais da organização devem ser explorados. Por isso, a entidade europeia pretende investigar como o negócio foi elaborado, estruturado, avaliado e aprovado.
O pedido apresentado nos Estados Unidos busca acesso a informações que estariam em poder da FIFA (AMERICAS), Inc. e da FWC2026 US, Inc., duas empresas da Fifa sediadas na Flórida. A Uefa considera que os documentos e eventuais testemunhos podem ajudar a esclarecer a origem e a condução da operação.
Possível processo na Suíça
De acordo com o documento judicial, a Uefa e outras partes interessadas estudam apresentar uma denúncia criminal na Suíça contra Infantino e possivelmente outros integrantes da Fifa. A acusação em análise seria de gestão criminosa, prevista no artigo 158 do Código Penal suíço.
A entidade europeia questiona especialmente a forma como o projeto foi conduzido e a avaliação atribuída aos direitos comerciais da Fifa.
Segundo a Uefa, um grupo de investidores teria se comprometido a pagar US$ 4,2 bilhões por uma participação na Fifa Forward Enterprise. A operação avaliaria a empresa em aproximadamente US$ 20 bilhões.
Para a entidade europeia, o valor representaria uma subavaliação significativa dos direitos comerciais da Fifa. A Uefa também afirma que não houve um processo de concorrência aberto nem uma avaliação independente para determinar o preço dos ativos.
O grupo de investidores teria sido liderado pela Thrive Eternal, veículo de investimentos controlado por Joshua Kushner e ligado à Thrive Capital. A Uefa sustenta que os investidores poderiam obter uma participação financeira permanente na área comercial da Fifa.
Infantino já havia defendido a iniciativa como uma oportunidade para aumentar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol. O dirigente afirmou que se tratava apenas de uma proposta e que qualquer mudança dependeria da aprovação da maioria das 211 associações filiadas à Fifa e do Conselho da entidade.
A Fifa foi procurada pela Reuters para comentar o pedido judicial, mas não havia apresentado manifestação até a publicação das informações.
Uefa suspende boicote a competições da Fifa
A disputa chegou a ameaçar a participação de seleções europeias em torneios organizados pela Fifa. Em 30 de julho, as 55 associações filiadas à Uefa haviam concordado, de forma unânime, em não participar de competições da entidade, incluindo a Copa do Mundo, caso o projeto não fosse retirado.

A Fifa anunciou a desistência da Fifa Forward Enterprise no dia seguinte. Infantino afirmou que a proposta tinha como objetivo ampliar os investimentos no desenvolvimento do futebol mundial, mas reconheceu que o projeto havia provocado divisões que deixaram de atender a esse propósito.
Depois de receber garantias por escrito de que o projeto havia sido retirado de maneira “irrevogável e permanente”, a Uefa decidiu suspender provisoriamente o plano de boicote às competições da próxima temporada.
Com a decisão, todas as seleções europeias classificadas poderão disputar a Copa do Mundo Feminina Sub-20, que será realizada na Polônia no próximo mês. O torneio seria a primeira grande competição afetada pelo impasse entre a Uefa e a Fifa.
Apesar da suspensão, a Uefa afirmou que as associações nacionais deram mandato unânime para que a entidade utilize medidas institucionais, políticas e jurídicas para pressionar por reformas e limitar os poderes do presidente da Fifa.
A entidade também pediu uma revisão externa e independente de todo o projeto Fifa Forward Enterprise. Para a Uefa, a própria Fifa não deveria conduzir a investigação sobre uma proposta que provocou questionamentos dentro da organização.
A entidade europeia também colocou em dúvida a necessidade de buscar investidores externos. Segundo a Uefa, a Fifa possui bilhões de dólares em reservas, recursos que pertencem às associações-membro.
Infantino busca novo mandato
A crise ocorre em meio à movimentação de Infantino para permanecer no comando da Fifa. O dirigente já anunciou que pretende disputar um quarto mandato em março de 2027.
Infantino mantém o apoio das confederações africana e sul-americana. Nesta quinta-feira, também recebeu respaldo da Federação de Futebol da Arábia Saudita (SAFF), que declarou apoio à continuidade do presidente e da atual liderança da Fifa.
A Uefa, por outro lado, sinalizou que poderá atuar para apresentar uma alternativa caso Infantino busque a reeleição. A entidade afirmou que pretende trabalhar com confederações parceiras para garantir que as associações nacionais tenham uma opção considerada “crível” e comprometida com reformas na administração do futebol mundial.
