Laura Cardoso e Glória Menezes deixam uma televisão marcada por suas interpretações e por suas histórias - Foto: Divulgação / TV Globo
Há mortes de artistas que provocam tristeza e há aquelas que, além da comoção, levam o público a refletir sobre a dimensão de uma trajetória. As despedidas de Laura Cardoso e Glória Menezes reúnem essas duas sensações. A perda das atrizes causa dor, mas também chama atenção para o fim de uma geração que teve papel fundamental na construção e na transformação da televisão brasileira.
Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira (17), aos 98 anos. No dia seguinte, foi a vez de Glória Menezes, aos 91. A proximidade das duas despedidas chama atenção, mas o mais significativo está na história que ambas carregaram durante décadas. Não se trata apenas de duas atrizes conhecidas por novelas. Trata-se de duas profissionais que atravessaram diferentes fases da arte brasileira e acompanharam a transformação da televisão de uma novidade tecnológica em um dos maiores fenômenos culturais do país.
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E talvez seja justamente esse o ponto que merece ser discutido.
A televisão brasileira costuma ser lembrada por suas grandes novelas, autores e emissoras. Pouco se fala, entretanto, sobre os atores que sustentaram esse processo durante décadas. Laura e Glória estavam entre eles. Antes de o mercado audiovisual possuir a estrutura atual, antes do streaming, antes da multiplicação dos canais e das plataformas, elas já estavam diante das câmeras, construindo personagens em uma televisão que ainda procurava sua própria identidade.
Laura Cardoso foi testemunha de praticamente toda essa transformação. Sua trajetória começou no rádio e chegou à televisão em uma época em que o veículo ainda estava em formação. Ao longo da carreira, passou por diferentes emissoras, pelo teatro e pelo cinema, acumulando mais de uma centena de trabalhos.
Mas reduzir Laura à longevidade seria injusto.
O que fez dela uma referência não foi simplesmente permanecer trabalhando por tantas décadas. Foi a capacidade de continuar sendo atriz em uma indústria que mudou completamente ao seu redor. Laura não dependia de uma personagem específica para permanecer relevante. Sua força estava no trabalho de interpretação.

Ela pertencia àquele grupo de artistas capazes de fazer uma participação pequena parecer maior do que realmente era. Um olhar, uma pausa, uma fala curta ou uma reação podiam transformar uma cena. Em uma televisão cada vez mais acelerada, sua presença lembrava que interpretar também significa saber ouvir, observar e construir detalhes.
Glória Menezes representa outro capítulo dessa mesma história.
Sua trajetória está diretamente ligada ao desenvolvimento da telenovela brasileira. Em 1963, ao lado de Tarcísio Meira, protagonizou 2-5499 Ocupado, produção da TV Excelsior reconhecida como a primeira novela diária brasileira. Ou seja, Glória não chegou a um formato pronto: ela esteve entre os artistas que ajudaram a estabelecer uma linguagem que posteriormente se tornaria uma das maiores marcas da televisão nacional.
Essa informação, por si só, já dimensiona sua importância.
A novela diária se transformaria em um ritual para milhões de brasileiros. Durante décadas, personagens como os interpretados por Glória Menezes fizeram parte da rotina de famílias inteiras. Ela também não ficou presa a um único registro. Transitava entre o drama, a comédia, o romance e personagens de maior complexidade, acompanhando as mudanças da própria dramaturgia.

É aí que Laura e Glória se encontram.
As duas ajudaram a provar que televisão não deveria ser tratada como uma arte menor. Elas carregaram para as telas a experiência do teatro, do rádio e do cinema e, ao mesmo tempo, ajudaram a desenvolver uma maneira brasileira de interpretar para a televisão.
Também estiveram juntas em trabalhos importantes. As duas atuaram em Um Lugar ao Sol, em 1959, e voltaram a dividir o elenco de Senhora do Destino, em 2004.
A coincidência das mortes, portanto, tem um peso que ultrapassa o calendário.
E talvez exista uma crítica inevitável nesse momento.
O Brasil costuma reconhecer seus grandes artistas principalmente quando eles morrem. Homenagens aparecem, imagens antigas são recuperadas, cenas clássicas voltam a circular e expressões como “ícone”, “lenda” e “gigante” passam a dominar as redes sociais. Tudo isso é legítimo, mas também revela um problema: muitas vezes, a memória cultural brasileira funciona melhor diante da ausência do que durante a presença.
Laura e Glória não precisavam da morte para se tornar importantes. Suas carreiras já haviam respondido a essa pergunta.
Laura Cardoso e Glória Menezes morreram em momentos diferentes de suas vidas, com trajetórias particulares e estilos próprios. Não há motivo para transformar suas despedidas em uma espécie de história única. Mas é impossível ignorar o que elas simbolizam juntas: a passagem de uma geração de artistas que conheceu uma televisão muito diferente daquela que existe hoje.
Porque uma indústria que esquece seus pioneiros perde mais do que nomes. Perde referências.
Laura Cardoso deixa uma lição sobre o próprio ofício: a permanência não acontece apenas pela exposição, mas pela capacidade de continuar acreditando no trabalho. Glória Menezes deixa outra: artistas também podem estar na origem das transformações de uma indústria e, décadas depois, continuar relevantes dentro dela.
As duas morreram, mas suas personagens continuam disponíveis para serem revisitadas. E é justamente aí que está a diferença entre fama e legado.

A fama depende da presença.
O legado sobrevive à ausência.
No caso de Laura Cardoso e Glória Menezes, o legado não está apenas nas novelas, nos filmes ou nas fotografias antigas. Está na própria televisão brasileira que existe hoje. Parte dela foi construída pelas duas.
Por isso, a despedida não deveria terminar no luto.
Deveria começar pela memória.
