A continuidade do governo brasileiro contraria os planos americanos para a região e fortalece uma relação comercial que já coloca Pequim em posição privilegiada - Foto: Reprodução / Arte Reinan Cativo / CENARIUM
Na geopolítica internacional, o roteiro raramente é escrito por apenas um personagem. Há interesses que se cruzam, alianças que mudam conforme a conveniência e disputas nas quais o poder econômico costuma falar mais alto do que os discursos diplomáticos. Nesse cenário, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva ocupa uma posição estratégica entre duas potências que desejam ampliar sua influência: os Estados Unidos de Donald Trump e a China de Xi Jinping.
A vitória de Lula representa um obstáculo aos planos de Washington para consolidar sua presença na América Latina e conter o avanço chinês. Mas interpretar esse resultado apenas como uma derrota de Trump seria reduzir a complexidade da disputa. O que está em jogo é a capacidade brasileira de preservar sua autonomia e utilizar o interesse internacional por suas riquezas para impulsionar o próprio desenvolvimento.
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Trump tem demonstrado disposição para reafirmar a influência americana no continente. Sua chamada “Doutrina Donroe”, inspirada na Doutrina Monroe do século XIX, recupera a ideia de que os Estados Unidos devem exercer uma posição privilegiada no Hemisfério Ocidental. A captura e a extradição do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças americanas, em 3 de janeiro, ilustraram a disposição de Washington de agir de maneira contundente na região.
A continuidade de Lula no poder dificulta esse projeto. Historicamente crítico à influência americana, o presidente brasileiro defende uma política externa que permita ao país tomar decisões sem se submeter às prioridades de Washington. Ao afirmar, durante a comemoração da vitória, que o Brasil não é quintal de ninguém, Lula resumiu uma reivindicação legítima de soberania.

Soberania além do discurso
O problema é que soberania não se mede apenas pela capacidade de contrariar os Estados Unidos. Ela também depende da possibilidade de negociar em condições favoráveis com qualquer parceiro internacional, inclusive a China. Afinal, trocar a influência de uma potência pela dependência de outra não seria uma demonstração de independência, mas apenas uma mudança de endereço na relação de poder.
É nesse ponto que a política externa brasileira precisa ir além da disputa ideológica. A relação de Lula com Pequim pode ser estratégica, assim como a manutenção de canais de diálogo com Washington. Nenhum desses vínculos, porém, deve ser tratado como um compromisso incondicional. Na diplomacia, afinidades políticas não substituem a defesa de interesses econômicos e nacionais.
A China já ocupa uma posição central no comércio exterior brasileiro. Desde 2009, o país asiático é o principal parceiro comercial do Brasil, e a diferença em relação aos Estados Unidos se ampliou. O Brasil exporta para os chineses cerca de três vezes mais do que para os americanos, em valores, e importa aproximadamente o dobro da China em comparação com os Estados Unidos.
Essa relação oferece oportunidades importantes. A demanda chinesa por alimentos, petróleo e matérias-primas sustenta parte relevante das exportações brasileiras. As tarifas impostas por Trump também contribuíram para abrir espaço a produtos agrícolas do Brasil em mercados nos quais mercadorias americanas perderam competitividade. Ao mesmo tempo, as mudanças no comércio internacional de energia fortaleceram a importância do petróleo brasileiro para compradores chineses.
Mas os números do comércio, por si só, não contam toda a história. Exportar grandes volumes não significa necessariamente desenvolver uma economia mais sofisticada. Se o Brasil permanecer concentrado na venda de produtos primários e na compra de bens industrializados de maior valor agregado, poderá ampliar suas receitas sem avançar na mesma proporção em inovação, produtividade e capacidade tecnológica.

O país possui cerca de 20% das reservas mundiais de terras raras, além de recursos minerais essenciais para setores como semicondutores, robótica, energia renovável e defesa. Também tem peso expressivo na produção agrícola e dispõe de reservas de petróleo que despertam o interesse de grandes consumidores internacionais. Em uma economia global cada vez mais dependente de tecnologia, energia e minerais estratégicos, essa combinação confere ao Brasil um poder de negociação que não deveria ser desperdiçado.
A pergunta central, portanto, não é se o Brasil deve escolher Trump ou Xi Jinping. É o que o país pretende obter de cada um deles.
Acordos comerciais precisam produzir benefícios que ultrapassem o aumento das exportações. Investimentos estrangeiros devem ser avaliados também pela capacidade de gerar empregos qualificados, ampliar a infraestrutura, estimular a pesquisa e desenvolver cadeias produtivas nacionais. No caso dos minerais estratégicos, por exemplo, o desafio é evitar que a riqueza brasileira seja valorizada no exterior enquanto as etapas mais lucrativas da produção e da tecnologia permanecem concentradas em outros países.
Essa exigência vale para todos. A China busca assegurar o acesso aos recursos necessários à sua indústria, enquanto os Estados Unidos procuram preservar sua posição econômica e estratégica diante da concorrência chinesa. Ambos agem conforme seus interesses nacionais. Seria ingênuo esperar que qualquer uma dessas potências colocasse o desenvolvimento brasileiro acima de suas próprias prioridades.
O desafio de transformar influência em resultados
O governo Lula também terá de enfrentar obstáculos domésticos. As dificuldades fiscais, as incertezas sobre o crescimento econômico e a possibilidade de conflitos no Congresso podem limitar sua capacidade de executar uma estratégia de longo prazo. Sem estabilidade interna, planejamento e políticas consistentes de desenvolvimento, a relevância internacional do Brasil corre o risco de ficar restrita ao discurso diplomático e à abundância de recursos naturais.
É por isso que a vitória eleitoral não deve ser confundida com uma garantia de maior protagonismo global. Ela estabelece as condições políticas para a continuidade de uma orientação diplomática, mas os resultados dependerão das escolhas feitas a partir de agora. O Brasil precisará demonstrar que consegue negociar, diversificar parcerias e transformar sua importância econômica em ganhos duradouros para a população.
No grande filme da disputa entre Estados Unidos e China, o Brasil não precisa aceitar o papel de figurante nem se comprometer com um único protagonista. Pode dialogar com os dois, desde que tenha clareza sobre seus objetivos e capacidade para defender suas condições.
A declaração de que o país não é quintal de ninguém é um ponto de partida, não é uma política de desenvolvimento. A verdadeira prova de soberania virá quando o Brasil conseguir proteger seus recursos, agregar valor à própria produção, ampliar sua autonomia tecnológica e reduzir vulnerabilidades econômicas.
Entre Trump e Xi Jinping, Lula terá de administrar pressões de todos os lados. O sucesso dessa estratégia não será medido pelo desagrado de Washington nem pela satisfação de Pequim, mas pelos benefícios concretos que o Brasil conseguir conquistar. Afinal, em uma disputa na qual cada potência escreve o roteiro pensando em si mesma, cabe ao país garantir que seus próprios interesses não terminem relegados a um papel secundário.
